Fita nada prova no
‘escândalo do leite’
Qualidade ruim impede uso de gravação no caso das cooperativas
Benê Bianchi
Josoé de CarvalhoDepoimentoVanderlei Canto: transporte de amostras e promessa de empregoO ‘‘escândalo do leite’’ não será esclarecido por fita cassete. Os recursos disponíveis no Instituto de Criminalística de Londrina não foram suficientes para fazer a transcrição da fita apresentada por diretores da Cooperativa Cativa, que supostamente comprovaria tentativa de extorsão contra a empresa.
Na fita, foi gravada conversa entre Osmar Buzinhani, presidente da Cativa, Alfredo Carvalho, gerente da cooperativa, Fredemax Mota, apontado com assessor do ex-vereador Jaci Aguiar (PDT), e Aristeu Rodrigues, ex-assessor do vereador Alvair de Souza (PL).
O ‘‘escândalo do leite’’ - como ficou conhecido o caso - surgiu com as denúncias de tentativa de extorsão por parte de assessores parlamentares contra a Cativa e a cooperativa Central Norte, de Apucarana. Três pessoas ligadas à Câmara de Vereadores de Londrina - Fredemax Mota, Aristeu Rodrigues e José Rojas Gavilan - teriam exigido R$ 80 mil das duas cooperativas para não revelar resultado das análises de leite feitas pelo Instituto Adolfo Lutz. Laudos do instituto paulista apontaram presença de coliformes fecais no leite produzido pelas cooperativas.
Segundo o perito Luciano Bucharles, a qualidade da gravação apresentada pelos diretores da Cativa é muito ruim. O gravador estava dentro de uma pasta, que ora ficava aberta, ora fechada, além de ter várias pessoas falando simultaneamente. ‘‘Tentamos fazer uma clarificação total usando todos os recursos disponíveis. Esgotado o que podíamos fazer no Instituto de Criminalística, procuramos duas rádios da cidade e estúdios particulares, mas não foi possível fazer nada além do que já tínhamos feito’’, comenta Bucharles. Com o trabalho de clarificação, foi possível ouvir algumas palavras mas o chiado impede que sejam ouvidas frases completas. O perito informa que nenhuma das palavras audíveis remete a uma possível tentativa de extorsão.
O relatório do Instituto de Criminalística e a fita seriam encaminhados ainda ontem para o delegado que preside o inquérito policial sobre o caso, Joaquim de Melo. Ele aguardava apenas essas peças para concluir o trabalho. Já estão indiciados Fredemax Mota, Aristeu Rodrigues e José Rojas Gavilan (ex-assessor do vereador Beto Scaff).
Segundo o delegado, a não transcrição da fita não prejudica o inquérito. ‘‘Se tivesse sido feita a degravação teríamos uma prova a mais nos autos. Mas as provas testemunhais existentes foram suficientes para o indiciamento dos acusados.’’ O inquérito deve ser remetido à Justiça na próxima semana.
Na quinta-feira, o vice-prefeito e presidente da Companhia de Desenvolvimento de Apucarana, José Teodoro Alves, prestou depoimento. Seu nome foi citado pela advogada da Central Norte, Shirlene Massei. Segundo ela, Alves saberia da tentativa de extorsão contra a cooperativa.
De acordo com o depoimento da advogada, ela e o gerente comercial da Central Norte, Nelson Estivan, conversaram com Fredemax Mota e José Rojas Gavilan - quando eles teriam pedido R$ 50 mil para não divulgar o laudo do Instituto Adolfo Lutz - numa das salas da Companhia e na presença de Alves. O vice-prefeito confirmou que estava na sala, mas não ouviu a conversa por estar envolvido com outros afazeres.
O último depoimento programado pela Comissão de Inquérito (CEI) da Câmara que investiga o ‘‘escândalo do leite’’ foi feito ontem à tarde. O pedreiro Vanderlei Tavares Canto, de Arapongas, confirmou ter levado quatro amostras de leite produzido naquela cidade e em Rolândia para análise no Instituto Adolfo Lutz a pedido de Fredemax Mota e do vereador Marcelo Plastina, de Arapongas.
Vanderlei Canto informou ter trabalhado na campanha de Fredemax Mota para vereador, em 96. Segundo relatou, Mota e Plastina o procuraram em casa solicitando que levasse as amostras até o Adolfo Lutz, em São Paulo. Para isso, pediram a ele que retirasse uma passagem no Centro Social Urbano da Prefeitura de Arapongas.
Para custear as despesas e pagar a passagem de volta, Vanderlei teria recebido R$ 125,00 e a promessa de um emprego na Câmara de Arapongas quando retornasse. A promessa não foi cumprida. A viagem foi realizada dia 31 de março e, de acordo com o pedreiro, as amostras foram entregues a ele já embaladas de acordo com especificações técnicas.
A CEI aguarda respostas do Adolfo Lutz para esclarecer quem teria pago pelas análises das amostras encaminhadas dia 31. Todos os laudos, incluindo as amostras coletadas dia 17 e as únicas autorizadas pelo plenário, foram encaminhados em nome da Câmara Municipal de Londrina.
A CEI também já recebeu as respostas às perguntas enviadas ao promotor de Defesa do Consumidor, Leonir Batisti, que acompanhou a coleta de oito amostras de leite comercializadas em Londrina, dia 17 de março. O trabalho foi feito a pedido da Câmara de Londrina. As respostas foram dadas por escrito.
Além de relatar como foi o trabalho de coleta, o promotor voltou a afirmar que Fredemax Mota foi apresentado a ele pelo ex-vereador Jaci Aguiar como sendo seu assessor. Aguiar nega que Mota tenha trabalhado com ele. O presidente da CEI, Antenor Ribeiro, solicitou mais 15 dias de prazo para elaborar o relatório sobre as investigações.

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