Esqueça todas as imagens associadas à saúde na terceira idade que você viu durante a Semana do Idoso, que se encerra hoje. Com 71 anos, o personagem desta matéria não pode ser taxado simplesmente como ''idoso que se cuida''. Ele atingiu um nível de preparo físico ainda muito raro entre pessoas com idade acima de 60 anos, apesar da presença cada vez maior dessa faixa etária nas academias.
Antônio Domicil ''Nervético'' da Silva é campeão sul-americano de fisioculturismo. Nascido em Cornélio Procópio, de onde se mudou para São Paulo com apenas cinco anos, o ex-eletricista se tornou celebridade internacional ao conquistar um conjunto de músculos invejável após já ter passado da meia-idade. Ele falou à Folha, ontem, durante rápida passagem por Londrina, onde participou de um curso com o massagista terapêutico Iukio Onishe.
O apelido ''Nervético'', que Antônio faz questão de incorporar ao nome, nasceu de um grito emitido durante as atividades de musculação. ''Todo mundo grita alguma coisa quando está fazendo grande esforço na academia, e um dia eu inventei de gritar 'tô nervético!'. Aí a palavra pegou. É gostoso de falar, dá um gás pros exercícios'', explica.
Mais surpreendente do que a coleção de troféus que o fisioculturista ganhou depois que começou a treinar, há 13 anos, é saber que suas vitórias foram precedidas por 22 anos de alcoolismo. Antônio foi campeão de levantamento de peso quando jovem, mas aos 28 começou a beber e largou os exercícios. ''Uma vez bebi um garrafão de cachaça com o Raul Seixas, em São Paulo. Bebia cada vez mais, e quando parei tive ansiedade de comer. Cheguei a pesar 116 quilos. Tive pressão alta, gota e inchaços'', conta.
O primeiro passo para vencer os problemas pós-alcoolismo foi fazer uma dieta. Antônio se lembra de ter ingerido, durante 70 dias, 1.360 pés de alface. Depois de perder peso, ele começou a intensificar os exercícios de musculação, até chegar às medidas atuais: 80 quilos, sendo 75 só de massa muscular.
Em 1993, Antônio ganhou um campeonato paulista de fisioculturismo na categoria Master, para pessoas acima de 40 anos. ''Ainda não havia categoria especial para minha idade. Ganhei competindo com gente quase 20 anos mais nova do que eu'', ressalta. Dois anos depois, veio o prêmio nacional. Em 1997, ele foi campeão sul-americano e, em 2003, foi o 4º colocado em uma competição mundial entre 23 países.
Embora admita ter uma ''genética privilegiada'', como já ouviu dos médicos, o campeão acredita que a musculação pode ser adotada por grande parte das pessoas na terceira idade. ''É muito importante para o idoso se exercitar. A musculação me tirou do alcoolismo, das doenças, se não fosse ela eu já tinha morrido. Só não pode fazer exercício, tem que ter um personal trainer, alguém que oriente sobre os limites'', aponta.
Para quem acha que Antônio consome anabolizantes e não são poucos os que desconfiam disso, diz o próprio ele garante que jamais teve que lançar mão desse recurso. ''70% do meu físico se deve à alimentação: cinco refeições por dia, muito ferro, nada de açúcar e frituras. Os jovens usam anabolizantes porque são muito impacientes, querem ficar com um braço como o meu do dia para a noite. Eu levei 10 anos para ficar assim''.
Além de manter uma alimentação saudável, o fisioculturista diz que leva uma vida regrada e faz check-ups médicos todo ano. Com todos esses cuidados, ele afirma que não conseguiu apenas uma estética premiada, mas uma vida melhor, inclusive no sexo. Para quem duvida, vai uma última informação: Antônio teve um filho, por métodos naturais, há apenas dois anos.

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