Físico prevê fim do petróleo em 30 anos
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de junho de 1998
Marccio W. Varella 
O físico e engenheiro José Walter Bautista Vidal, 70 anos, já foi por três vezes secretário de Tecnologia Industrial do Ministério da Indústria e Comércio, nos governos Geisel e Sarney; criou o Proálcool; montou projetos para substituição do óleo diesel por óleos vegetais, já teve acesso a documentos importantes de institutos tecnológicos e ambientais dos EUA e Europa; é profundo conhecedor dos bastidores da política interna e externa do Brasil; faz conferências em todo o planeta. E não poupa ninguém de suas críticas. Seu alvo preferido é o narcotráfico, que, segundo ele, controla o mercado financeiro internacional, inclusive as privatizações brasileiras.
Escreveu cinco livros: A reconquista do Brasil, Soberania e Dignidade, O esfacelamento da nação e Nação soberana. O quinto, que escreveu em parceria com o sociólogo Gilberto Vasconcelos, Meditação sobre a alienação energética na cultura brasileira, deve ser lançado até o final deste mês. O volume de dados e informações científicas e tecnológicas desses livros é impressionante e as fontes, fidedignas.
Ele diz que até hoje ninguém conseguiu contestar suas afirmações. Como a de que em 30 anos as reservas mundiais de petróleo chegarão ao fim, provocando a decadência das nações hegemônicas, as mais ricas do planeta.
Para resolver este problema, ele propõe a energia da biomassa, que através dos hidratos de carbono das plantas poderá mover motores e usinas sem poluição, com muito mais economia e segurança maior ainda. Depois do Próalcool, ele criaria o Pródiesel, mas foi demitido. A idéia não interessava às sete irmãs produtoras de petróleo.
Na semana passada ele esteve em Maringá para fazer uma palestra na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Antes, conversou com os jornalistas na sede do Centro Patriótico Tiradentes, e falou de tudo, criticou políticos e, principalmente, a mídia brasileira.
Folha - Como está a situação do petróleo?
Bautista Vidal - Todas as formas energeticas usadas pelo homem em todos os tempos, com apenas três exceções, vêm do sol. As exceções: energia das marés, energia geotérmica (o centro da terra é metal líquido) e energia nuclear, que é uma maldiçao.
Todas as outras vêm do sol, em duas grandes famílias. Uma é aquela que leva centenas de milhões de anos para se formar: petróleo, carvão mineral, xisto, gases. Esta, dentro de 30 anos, segundo comprovações e avaliações científicas, vai acabar. Para ter de volta, só daqui a 600 milhões de anos. A outra são os dividendos da energia solar, que é o que a planta capta e armazena, é a energia solar armazenada, o açúcar que fermenta e dá o álcool, o óleo vegetal que faz funcionar motores diesel, a madeira que acionada pelo fósforo devolve energia solar.
Então a fonte de todas as energias sempre é o sol. Ocorre que os países hegemônicos (os grandes) nao têm sol e eles tiveram que partir para esta loucura alucinante de usar formas energéticas que levam centenas de milhões de anos para se formar. Por causa disso comprometeram seu futuro. Estão condenados a desaparecer. Hoje estão profundamente decadentes e sem condições de sobrevivência energética.
Atualmente, a questão energética, que é centrada no petróleo, é uma questão militar. O Oriente Médio, que tem 70% do petróleo do mundo, é uma região ocupada militarmente pelas forças armadas dos EUA. Eles estão gastando hoje 100 dolares em despesas militares por cada barril que importam. E eles importam mais de 60% do petróleo do Oriente Médio. O Japão depende vitalmente do poder militar americano, a Alemanha também, a Itália também, a França também.
O Japão vira sucata em três meses se faltar petróleo; a Alemanha tem petróleo para zero ano; os Estados Unidos têm petróleo só para cinco anos. A situação dos países hegemônicos é desesperadora. O carvão mineral, responsável por 82% da energia elétrica dos Estados Unidos, corre risco pois as organizações ambientais norte-americanas exigem que este carvão seja cortado em 80% da sua queima. Como é que pode? Se não cortarem, este carvão vai elevar ainda mais a temperatura da terra e piorar o efeito estufa.
Folha - Nesse contexto, como fica o Brasil?
Bautista Vidal - Com essa perspectiva de o petróleo acabar em 30 anos, o Brasil se transforma rapidamente na maior potência do planeta. Essa é que é a nossa tragédia, de um lado, e a nossa grande chance do outro. Nunca nenhum povo, em toda a história da humanidade, teve uma perspectiva como o Brasil está tendo hoje. Nós estamos ao sul do Equador, nos trópicos, temos sol e água, somos a maior fonte de energia do mundo e até agora não vi nenhum candidato a presidente tocar nesse assunto. Vamos ter resistências descomunais para vencer essa resistência. A verdade é que o mundo todo depende do continente Brasil e a nossa classe dirigente ignora isso.
Nessa perspectiva, a única solução é a energia dos dividendos solares que a biomassa pode oferecer através do álcool e dos vários vegetais. Energia é aquilo que permite transformar uma rocha num avião através da tecnologia. Mas para isso é preciso água e o Brasil tem 22% da água do planeta; o Canadá tem 14%, mas na maior parte do ano a água lá é gelo. Então podemos construir aqui a grande civilizaçao do futuro porque temos tudo.
O sol é muito democrático, ele se espalha. A planta através da fotossíntese capta essa energia solar e armazena o calor, numa reação química endotérmica com o gás carbônico e a água, nos hidratos de carbono. O que são esses hidratos? Os açúcares, os óleos vegetais, os amidos, a celulose. Tudo isso é energia pura. O que é o Próalcool? É energia solar armazenada no açúcar que é fermentado e transformado em álcool e que move a roda do motor. Óleo vegetal é energia solar armazenada em centenas de óleos inclusive a mamona, o dendê, e que colocada nos motores faz 40 quilômetros com um litro de óleo. E nós temos centenas de óleos vegetais. Para vocês terem uma idéia de nossa grandeza, só o oleo de dendê, segundo levantamento feito na Amazônia pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), pode produzir seis milhões de barris/dia de óleo diesel, que é superior ao diesel do petróleo. É a mesma quantidade de petróleo produzida pela Arábia Saudita. Tem também óleo de mamona, girassol, soja.
Folha - Por quê o senhor não conseguiu montar um programa de substituição do óleo diesel?
Bautista Vidal - Eu montei um programa para substituir a gasolina, o diesel, o óleo industrial, tudo, né? Como o do álcool era o mais dificil, o mais complicado, o fizemos primeiro e foi um sucesso total. Ocorreu que o jogo internacional não permitiu que eu fizesse os outros. O que você acha que os nossos prepostos nacionais (autoridades e políticos brasileiros) estão fazendo aí senão obedecer seus patrões (os EUA)?
O Simonsen (Mário Henrique), que era o ministro da Fazenda, a primeira coisa que ele fez quando assumiu foi aceitar uma chantagem do Banco Mundial e pegar um empréstimo de US$ 1 bilhão. O banco condicionava dar toda essa grana se o governo entregasse ao controle de empresas americanas a criação das usinas de alcool. O dinheiro viria como empréstimo para a criação do Próalcool.
Eu disse ao Simonsen que não precisava disto, pois o programa não gastaria quase nada, o equipamento era fabricado aqui, os trabalhadores eram brasileiros. Estava na cara que aquilo era falcatrua de banqueiros. Com o nosso dinheiro nós já tínhamos preparado 150 institutos de tecnologia para fazer a substituição do petróleo pela biomassa. Hoje só temos um funcionando.
Folha - Em seus livros o senhor diz que o dinheiro que circula no mundo é falso. Como é isso?
Bautista Vidal - Dinheiro é papel pintado falso. Isso que chamam de dinheiro é uma enorme falcatrua. O dinheiro que circula, o verde, é no mínimo vinte vezes falso. Vem de gente do narcotráfico. Um país que tem água, tem sol e muita terra não pode ficar pendurado nessa falcatrua dos traficantes de tóxicos que hoje dominam o sistema financeiro internacional. A maior falcatrua cometida contra a humanidade é esse tal de sistema financeiro, delinquente, criminoso, montado por uma máfia internacional que através de dinheiro falso impõe aos povos essa situação de miserabilidade.
Nunca ninguém se atreveu a discutir comigo e muito menos a contestar essas teses. Lamentavelmente nos estamos vivendo no mundo da lua, com uma mídia delinquente, sem-vergonha, que mente descaradamente e nos leva à ruína. Até os nossos patrimônios cruciais, essenciais estão sendo perdidos. Foram doadas ao narcotráfico as maiores minas do mundo - são cerca de sete mil concessões de minas, de graça, que o narcotráfico foi ganhando aos poucos.
Aqui no Brasil eles já têm tudo praticamente na mão. Você acha que esses prepostos que estão no poder nacional têm alguma coisa a ver com o Brasil? O Itamar (ex-presidente Itamar Franco) se atreveu a nomear um diretor do Banco Central, nomeou, foi publicado no Diário Oficial e quatro dias depois teve que desnomear. Getúlio (Vargas) foi talvez o nosso único estadista, um homem extremamente capaz, que trabalhou em condições extremamente precárias. Tudo o que ele fez foi em benefício do Brasil. Foi ele quem montou a Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN, em Volta Redonda (RJ). Veja como Getúlio conseguiu montar a CSN: os americanos não aceitavam que o Brasil tivesse uma siderúrgica. Aí Getúlio mandou uma delegação a Washington negociar, mas antes mandou que essa delegação passasse por Berlim, que tinha no poder um senhor chamado Adolf Hitler. Aí os americanos admitiram a siderúrgica. No fundo Getúlio fez uma chantagem a nosso favor.
Vocês sabem como foi a privatização da CSN? A CSN é um patrimônio de US$ 5 bi e foi vendida por US$ 28 bi. Havia no cofre da CSN no dia de sua venda US$ 78 mi em notas e mais US$ 200 mi em produtos acabados no pátio. Quem se apoderou da CSN foi o narcotráfico que depois deu a siderúrgica como aval para comprar a Vale do Rio Doce.
Fui até o fim do governo Geisel, fui secretário de Tecnologia Industrial do Severo Gomes e depois voltei ao mesmo cargo no governo Sarney. Aí já estava tudo destruído. O Sarney fez tudo errado.
Folha - Por quê o senhor diz em seus livros que o pior golpe para o Brasil ocorreu em 1979?
Bautista Vidal - O pior golpe que nós sofremos foi em 79, não foi em 1964, quando houve de fato um golpe militar, mas mal ou bem os homens que estavam lá dentro eram brasileiros. Em 79, não: foi intervenção estrangeira total. O Kissinger (ex-secretário de estado americano Henry Kissinger) chegou a dizer que seria intolerável para os EUA ter um outro Japão ao sul do equador. Isso foi em 1978. A partir de 79 começou a desgraceira, tudo o que foi construído desde a década de 20 foi destruído e o Fernando Henrique Cardoso nada mais é do que a continuação desse golpe. Foi uma ação internacional, com perda do nosso patrimônio, do início da globalização, do neoliberalismo, da destruição do estado brasileiro, do desemprego maciço, da destruição das universidades, da destruição do estado brasileiro e da pesquisa, da ciência e da tecnologia. Tínhamos conseguido realizar o maior programa de alternativa eneregética do mundo. Foi tudo por água abaixo.
Hoje já entregamos a troco de nada os grandes patrimônios da nação. Entregamos o nosso maior patrimônio que é a Lei das Patentes. Entregamos o maior patrimônio mineral do planeta, que é a Vale do Rio Doce. Estão entregando todas as hidrelétricas a grupos internacionais. Não existe uma hidrelétrica privada nos Estados Unidos. Não existe um porto privado no Japão. Você pega as estatísticas das Nações Unidas sobre a participação do estado na economia e vê: Noruega, 57%; França, 48%; Dinamarca, 70%; EUA, 28%; o Brasil antes do processo de privatizações era de 21%.
Bautista Vidal - Qual o seu partido político?
Bautista Vidal - Eu sou físico. Desde a teoria da relatividade que o universo tem quatro dimensões. Como é que eu posso entender o mundo em dois sentidos, direita e esquerda? Eu nao sei o que significa direita e esquerda. Eu quero é ver o projeto energético que os candidatos têm. A verdade é que a nossa nação está caminhando para ser uma grande multinacional.
Mas nós não vamos deixar, eu, vocês, o pessoal da reserva das forças armadas que estão desesperados, mas não querem saber de golpe. Só entram numa luta pra valer se for junto com os civis. Isso já está começando a pintar graças a Deus. Vem aí uma nova Revolução de 30.


