Michele Muller
De Curitiba
O físico pernambucano José Leite Lopes, um dos maiores nomes da ciência no Brasil, foi chamado pelo Sindicato dos Jornalistas para falar sobre a arte de ser brasileiro. ‘‘Não é arte nenhuma ser brasileiro; é um castigo’’, resmunga ao comentar sobre o tema que, algumas horas depois, seria discutido por ele e pelo humorista Marcelo Madureira, do programa Casseta & Planeta. Eles foram os convidados da noite de ontem no Ciclo de Idéias, evento realizado no Memorial da Cidade.
As críticas ao governo brasileiro feitas pelo físico são duras e carregadas de rancor. Fundador, juntamente com outros cientistas, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), ele diz que a ciência nunca foi tão desprezada no País. ‘‘O Estado gasta todo seu orçamento com dívida externa e interna. Mas pensa que não deve investir na pesquisa. Para essa equipe governamental, é possível importar todo o conhecimento científico’’, opina.
A baixa qualidade da educação, segundo ele, sempre foi um dos principais problemas do País, vivendo hoje sua pior fase. ‘‘Na minha época de estudante, as escolas eram melhores. As universidades eram melhores. Depois da ditadura a educação foi deixada de lado. Hoje temos boas cabeças, mas falta dinheiro para que seus trabalhos sejam desenvolvidos’’, diz.
O físico aponta algumas doenças que, por não atingirem a população de primeiro mundo – onde a ciência é mais valorizada – jamais encontrarão antídotos se não forem pesquisadas por cientistas brasileiros. ‘‘A malária, por exemplo, ou as doenças que atingem produtos agrícolas, têm que ser pesquisadas, e isso deve ser feito por nós. O Carlos Chagas, que considero o maior pesquisador do século passado, descobriu a doença de Chagas. Ele trabalhava no Instituto Oswaldo Cruz, um órgão federal. A descoberta só foi possível porque na época a ciência recebia mais incentivo do governo.
Quando o assunto se afasta da política e se aproxima da ciência, José Leite desmancha a expressão preocupada e diz: ‘‘A ciência é bela. Pode ser tão bela quanto uma mulher’’. E foi para propagar a beleza dos átomos e microseres que o físico dedicou parte de seus 80 anos. ‘‘É bonito ver as pessoas olhando em microscópios e descobrindo que o mundo não é feito de bruxaria. É regido por leis científicas’’.

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