Dimitri do Valle
De Curitiba
A fiscalização do Conselho Regional de Odontologia (CRO) fechou uma clínica onde as auxiliares prestavam atendimento como se fossem dentistas. O flagrante aconteceu ontem à tarde na clínica do dentista César Andraus, no edifício Minas Gerais, no calçadão da rua XV de Novembro. O CRO recebeu denúncias de pacientes que sofreram sequelas durante os tratamentos dentários. Andraus negou as irregularidades e garantiu que o trabalho das atendentes faz parte da rotina de qualquer consultório.
De acordo com o fiscal do CRO Luiz Roberto Dagosta, Andraus responderá inquérito policial por permitir o trabalho de pessoal não habilitado, além de um processo ético. As cerca de 20 cadeiras e demais equipamentos também serão apreendidos pelo CRO. No momento da chegada dos fiscais, a clínica estava lotada de pacientes.
‘‘Tinha mais de 20 funcionárias atendendo as pessoas’’, revelou Dagosta. Após a autuação, os fiscais aproveitaram para tomar o depoimento de pacientes que estavam na clínica no momento do flagrante. Todos confirmaram que as atendentes exerciam as funções de dentistas. ‘‘O doutor nunca olhou meus dentes, só as atendentes’’, disse a autônoma Angela Helena Bondan. Ela estava em tratamento há quatros meses. A paciente desembolsou R$ 180,00 e mais quatro parcelas mensais de R$ 68,00 para tentar corrigir a posição dos dentes.
O estudante Daniel Cassiano era paciente da clínica há três anos. ‘‘Do jeito que estava naquele tempo, está hoje. Não melhorou de jeito nenhum’’, reclamou. Ele calcula que gastou aproximadamente R$ 3 mil no tratamento. ‘‘Perdi mais R$ 68,00 hoje (ontem) quando o pessoal da clínica mandou todo mundo embora’’, lamentou. O estudante também confirmou que as funcionárias atendiam todos os pacientes durante o tratamento.
A autônoma Rosemara Costa relatou que o dentista ministrava um curso de auxiliar odontológico para as atendentes nos sábados. Rosemara disse que pôde tratar uma correção dentária com o próprio César Andraus nos dois meses de consultas.
Apesar do impedimento legal previsto no código de ética do CRO, o trabalho das atendentes chegou a ser elogiado por um paciente. ‘‘Meu primo curou um problema grave’’, disse o administrador Germano Zanini. Um dos motivos que o levaram a procurar a clínica foi o preço, considerado bem abaixo dos praticados pelos outros dentistas. ‘‘Não tive problemas até agora’’, disse o paciente, que teve um aparelho corretivo colocado por uma atendente.
A Vigilância Sanitária vai inspecionar o local para constatar se as condições de higiene eram respeitadas ou não. Enquanto o processo ético tramitar no CRO, o dentista César Andraus poderá continuar a exercer a profissão, desde que faça este trabalho em outro local, segundo o fiscal Luiz Dagosta.
Em entrevista à Folha, Andraus disse que o trabalho de atendentes não acontece somente em sua clínica, mas em todos os consultórios da cidade. ‘‘Elas são treinadas. Isso acontece em todos os consultórios’’, defendeu-se. Andraus classificou a atuação da fiscalização como ‘‘abuso de autoridade’’. ‘‘Simplesmente invadiram a clínica sem se identificar’’, protestou.
Sobre as denúncias de que pacientes teriam reclamado de sequelas ao CRO, Andraus pediu que os fiscais identifiquem aqueles que estão acusando-o para ter a chance de se defender das acusações. O dentista comunicou que consultará seus advogados. ‘‘Vou tomar providências para ressarcir os prejuízos materiais e morais. Isto foi uma agressão’’, afirmou.Conselho Regional de Odontologia fechou a clínica central alegando que auxiliares agiam como se fossem dentistas
SorteA autônoma Angela Helena Bondan foi tratada pelo próprio dentista, que era proprietário do consultório, mas CRO teria recebido denúncias de outros pacientes

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