Finados leva visitantes aos 'milagreiros'
Telma Elorza
De Londrina
Cinco túmulos do Cemitério São Pedro, o mais antigo dos cinco municipais que existem em Londrina, deverão receber maior número de visitantes hoje, a exemplo do que ocorre todos os anos. Quatro desses túmulos são os dos falecidos considerados por alguns visitantes como milagreiros. É o caso de José Oswaldo Schietti; de Lecy Suzana Garcia, a Bela Adormecida; o do garoto Washington Luiz Siqueira; e do primeiro corpo enterrado no São Pedro.
O quinto, o da menina Neila Ribeiro estuprada e assassinada em 1970, aos 11 anos de idade , embora não seja considerado milagreiro também desperta a atenção pelo martírio sofrido e pela repercussão que o caso teve na época. Quando reformaram o túmulo, há dois anos, as pessoas ficaram meio perdidas. E muita gente nos procura para saber onde fica o túmulo da Neila, explica Sílvio Gardim, 48 anos, que trabalha em serviços gerais na Acesf (Administração de Cemitérios e Serviços Funerários de Londrina) há 13 anos.
Gardim diz que é comum, nesta época do ano, as pessoas deixarem também presentes. No do José Oswaldo, por exemplo, o pessoal sempre deixa brinquedos, tipo carrinho e caminhãozinho, conta.
Encontrar os túmulos milagreiros no meio dos labirintos de sepulturas não é nada fácil para quem não tem intimidade com o São Pedro. O visitante que tiver tempo e paciência, porém, pode fazê-lo sozinho. Para identificá-los é preciso observar atentamente cada túmulo. Inúmeras placas de agradecimento assinalam os locais dos milagreiros.
Um bom guia também pode ajudar. É o caso da faxineira Benedita Garcia, 55 anos, que passa boa parte de seus dias no cemitério. Benedita, além de conhecer a localização exata de cada um dos milagreiros, também conta as histórias de cada um. Eu só não sei o que aconteceu com o Washington, mas o povo vem muito aqui rezar pra ele, afirma.
Dona Benedita diz que o de José Oswaldo é o mais visitado e mais conhecido, porque há vários anos o túmulo vertia água. O povo achava que a água era milagrosa. Eu mesma conheço várias pessoas que disseram que foram curadas de doenças com a água, afirma. Mesmo depois que parou de verter água, o túmulo continuou atraindo a atenção. Um fala para o outro da graça alcançada e assim vai, analisa.
A história de José Oswaldo ajuda na mítica de seus milagres. Ele morreu aos nove anos, no dia de sua primeira comunhão. Dizem que ele era um anjo em vida e que Deus o levou justamente no dia de sua comunhão para não precisar sofrer aqui, afirma Dona Benedita.
O túmulo da Bela Adormecida também desperta a atenção, segundo dona Benedita, por causa da história. Na própria placa de identificação está o apelido de Lecy Suzana Garcia, morta aos 22 anos depois de ficar cinco anos em coma. Dizem que ela era muito bonita e que namorava um rapaz que não prestava. A mãe teria proibido o namoro e, de desgosto, a menina dormiu até morrer, conta a faxineira (veja matéria nesta página).
Já o do primeiro corpo enterrado no cemitério também atrai crentes e curiosos. Embora ninguém saiba quem é o homem enterrado ali, sua fama de milagreiro é forte. O povo diz que ele foi encontrado morto aqui, no local onde está enterrado. Ninguém sabia quem era nem o que estava fazendo ali, já que isto nem cemitério era, explica dona Benedita.
No túmulo do desconhecido, uma placa de homenagem é a única coisa que o diferencia dos demais: Justa Homenagem - Morto, estendido no chão, com seus braços abertos, em forma de cruz, jaz nesse humilde túmulo o nº 1 deste cemitério. Como os outros, ali também as plaquinhas de agradecimento são comuns. Os presentes, porém, são bem diferentes: batons, imagens de santos, copos de pinga, espelhos. É o que o pessoal também usa para despacho, diz a faxineira.
Nos outros cemitérios da cidade, apenas o Padre Anchieta, no Jardim Ideal (zona leste de Londrina), registra um caso de milagreiro. É o de um rapaz que morreu em acidente, há dois anos, conta João Bastista, 43 anos, há cinco trabalhando no cemitério. Segundo ele, o jovem Thiago F. da Silva iria completar 20 anos quando se acidentou. O povo é que fala que ele é milagreiro. Deixam flores, velas e até garrafas dágua que depois levam para casa, conta.Túmulos de falecidos venerados por quem quer receber ou já obteve algum tipo de graça deverão atrair grande número de pessoas
Fotos Josoé de CarvalhoDESCONHECIDOTúmulo do primeiro corpo enterrado no Cemitério São Pedro: homenagemBELA ADORMECIDATúmulo de Lecy Suzana Garcia, que morreu aos 22 anos de idadeMENINO MILAGROSOTúmulo de José Oswaldo Schietti, que morreu no dia da primeira comunhão, aos none anos de idade





