Paulo Henrique Faria
De Londrina
Especial para a Folha
Em tempos de crise, o comércio e a demanda de trabalhos temporários que giram em torno dos cemitérios – a uma semana do Dia de Finados –, é maior do que nos anos anteriores. Até ontem, a Companhia Municipal de Urbanização (Comurb) já tinha comercializado mais de 50% dos espaços para o trabalho de ambulantes nas proximidades dos cemitérios. O Parque das Oliveiras, localizado na zona leste, já está com todas as áreas delimitadas pela companhia vendidas. Os interessados nos espaços restantes para venda de velas e flores devem procurar a Comurb, preencher o cadastro no local, e pagar uma taxa de R$ 16 para dois dias de trabalho.
O número de pessoas que fazem ‘bico’ na manutenção e limpeza de jazigos também é bem maior do que em relação aos anos anteriores. A empregada doméstica Bernardete Bená, 47 anos, e que há 12 anos aproveita a semana anterior ao feriado para ‘levantar uma graninha’ lavando túmulos no Cemitério São Pedro (centro), disse que nunca viu um ano tão fraco e concorrido como este. Bená, que cobra R$ 10,00 para fazer o serviço, está sentindo os efeitos negativos da forte concorrência: até agora só pegou três túmulos para lavar.
O estudante Paulo Henrique Rocha, 18 anos, aplicou uma tática inteligente logo no primeiro ano de serviços prestados em cemitérios e se deu muito melhor do que Bernardete Bená. Paulo Rocha conta que já vem fazendo contato com as famílias que têm jazigo no Cemitério Municipal Jardim da Saudade (zona norte) há dois meses, pois já previa que a oferta por esse tipo de trabalho seria alta neste ano. ‘‘Peguei 18 túmulos só nesta semana’’, comemora o estudante que poderá lucrar cerca de R$ 200 pelos serviços.
A desempregada Maria de Fátima Loriano, 29 anos, encontou na lavagem de túmulos uma maneira de driblar a recessão. Maria de Fátima, que trabalhava como empregada doméstica, pegou apenas um túmulo para lavar, mas já pode apontar as vantagens do serviço. ‘‘Além de ser um trabalho gostoso, não tem patroa em cima para ficar tomando conta’’, afirmou. Para ela, cuidar de um túmulo é como cuidar da própria pessoa. ‘‘Eles merecem todo o carinho’’, concluiu Maria Loriano, que disse que vai voltar nos próximos anos ‘independente de estar empregada’.
O movimento nos cemitérios aumentou não só devido aos serviços de manutenção e lavagem dos jazigos. Muitas famílias também estão preocupadas com a aparência da ‘casa’ dos entes queridos que já morreram. É o caso da cabeleireira Maria José da Costa, viúva há sete anos. ‘‘Venho ao cemitério (Jardim da Saudade) uma vez ao ano. Mas faço a manutenção só pela tradição’’, disse. Com bom humor, a cabeleireira disse que faz o serviço mais pelos que estão vivos do que pelo marido falecido. ‘‘É só para os outros não falarem: Nossa! O marido da fulana morre e ela nem dá bola’’, brincou a viúva.
Já a dona de casa Regina Buranello Teodoro, 60 anos, é exatamente o oposto de Maria José da Costa. Ela garante que vai ao Cemitério Municipal Padre Anchieta – onde tem um casal de filhos sepultados –, pelo menos três vezes ao mês. Também revela que vai em velório e enterro até de quem não conhece. ‘‘Adoro cemitério’’, afirmou. ‘‘Faço isso porque é a maneira que encontrei para matar a saudade, e para que os outros também façam quando chegar minha hora’’, disse Regina Teodoro, que fez questão de ajudar a cunhada a lavar um outro túmulo, no Cemitério São Pedro.

mockup