Fim da agonia
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segunda-feira, 01 de julho de 2002
Telma ElorzaReportagem Local 
Assim como 170 milhões de brasileiros, ela aguardava com ansiedade a chegada do domingo, 30 de junho. Mas, ao contrário dos outros, não queria nem saber se o Brasil iria ou não ser penta. Depois de um mês de noites mal-dormidas, de indignação contra a paralisia que tomava conta do País a cada jogo do Brasil e do desperdício de dinheiro, tempo e energia que é a Copa, sua agonia estava ao fim.
Por isso, já tinha até combinado passar, depois do jogo, no churrasco que os amigos tinham organizado (iria mesmo que tivesse que passar o dia escutando maravilhas de um dos Ronaldos ou xingamentos ao Felipão, ao juiz e ao kaiser alemão) para comemorar. Afinal, ela também tinha seus motivos de comemoração (mesmo que não ousasse expressar suas opiniões em voz alta para não ser linchada).
No domingo, acordou como sempre ao som de rojões e trombetas mas com um sorriso no rosto. ''Tá acabando, tá acabando'', lembrava-se a todo momento. Só tinha mais um desafio a encarar antes do fim total da tortura: receber os amigos adolescentes do filho idem. A contragosto, tinha cedido à insistência do rapaz de tornar o apartamento em ponto de encontro da moçada. Enfim, quem mandou morar no centro, pertinho da Higienópolis e da festa?
Enquanto os convidados iam chegando, ela se ocupava com os afazeres. Preparou baldes de suco de laranja, toneladas de pãezinhos, tonéis de leite, dispôs tudo na mesa e foi cuidar da vida. Andando por ali, tropeçando em rapazes e moças animados, escutava os comentários do jogo. ''Impossível escapar'', pensava a cada UUHHHHH, AAAAAAAHHH ou algum palavrão que escorregava. Mas estava ''na boa'', como diria o filho. Queria mesmo que se divertissem, enquanto pudessem.
Aproveitou o primeiro tempo e tomou seu banho. No intervalo, foi conferir e repor as provisões esgotadas. Mas, de repente, ''marcou bobeira'' e se viu no meio da sala e da moçada observando o jogo por alguns segundos. Foi derrubada pelo gol de Ronaldinho. E, quando percebeu, estava abraçada, pulando e gritando com o filho no meio da sala. Comemorando! Ela! Que passou um mês driblando os jogos de futebol! Ela! Que mal via a hora que a Copa terminasse, Brasil ganhando ou perdendo!
Quando sai o segundo gol, rende-se de vez. Não sai da sala nem por decreto. Xinga o goleiro cara de mau alemão, manda beijos pro Felipão, elogia até o Galvão Bueno. Grita ''é penta'' como todos os outros 170 milhões.
Depois que os meninos saem para a festa na rua, ela se vê sozinha por instantes. O coração ainda disparado, um sorriso bobo na cara, olha no espelho e não se reconhece. ''É'' pensa, com lágrimas nos olhos ''futebol é mesmo uma caixinha de surpresas''. E sai, com o passo leve, para encontrar com os amigos. Tem o dia todo para comemorar o pentacampeonato.


