Quem transitar pelas ruas de Londrina dirá que a cidade não tem mais cinema. À exceção do Cine e Teatro Ouro Verde – a maior sala do Norte do Estado, símbolo da pujança da era do café – que possui programação de filmes esporádica e alternativa, os londrinenses têm que se confinar nos dois maiores shopping centers para acompanhar os lançamentos da cada vez menos frequentada telona.
Na paisagem da cidade, não há mais aqueles grandes painéis pintados à mão com as reproduções dos astros de Hollywood. O cinema está escondido no território climatizado dos que consomem e concorre com lojas, restaurantes e fast foods. Os que circulam na área central, não vão se lembrar de cinema, há não ser que esteja predisposto a isso. Se passar em frente a uma locadora, se lembrará de filmes, não necessariamente, de cinema.
Na última quinta-feira, na pré-estréia de ‘‘Bicho de Sete Cabeças’’, de Lais Bodanzky, estrelado pelo global Rodrigo Santoro, foram convidados os chamados formadores de opinião para uma sessão solene, com direito a pipoca e refrigerante. A idéia era tratar bem quem é habituado a ser bem tratado.
Tudo no script, até que todos os que se preparavam para assistir ao aclamado longa-metragem decidiram ocupar as poltronas. Neste momento descobriu-se que a organização criou dois tipos de convidados. Os que mereciam assistir aos 90 minutos de filme bem acomodados, nas poltronas, e os que deveriam prestigiar o cinema nacional de qualquer maneira, suportando a dureza do carpete e o ângulo de visão desfavorável.
A máxima imposta pelos organizadores era recorrente, afinal na pré-estréia de ‘‘A Partilha’’, de Daniel Filho, o problema também ocorreu, de forma ainda mais flagrante. A opção para alguns, como fiz na quinta-feira, foi desertar e voltar no outro dia, pagando R$ 6,00, felizmente justificados pela qualidade da obra.
Na sessão paga da sexta-feira, os lugares sobravam. Uma pitada de preconceito contra a sétima arte ‘‘brazuca’’ (ao lado, a atriz Liv Tyler arrastava multidão), uma sapecada de falta de dinheiro dos tempos bicudos (lembremos, na noite anterior, a entrada era franca) seriam as mais tentadoras explicações.
Mas ao que parece, o problema é que o País está desacostumado a se ver na telona e o povo de Londrina perdeu o hábito de caminhar e olhar os imensos cartazes das fachadas das antigas salas. Aquelas tão à mão, tão mais democráticas, que poderiam lembrar que o cinema brasileiro existe também para quem não vai a shopping.
Que não pare de haver pré-estréias do emergente cinema nacional em Londrina. São salutares para a vida cultural da cidade que não pode mais ressuscitar os imensos painéis do Vila Rica e do Augustus. Mas, que, na sessão, não faltem cadeiras e gente que precise redescobrir o cinema, nem que para isso precise descobrir o shopping center.

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