Lucinéia Parra
De Maringá
Preso desde o dia 21, o comerciante Celso Basílio, 23 anos, diz que se arrependeu de tentar resgatar o pai da cadeia de Mandaguari (33 quilômetros a leste de Maringá). Inconformado com a pena de 14 anos e nove meses de prisão aplicada ao pai Jorge Aparecido Basílio por estupro, Celso tenta justificar sua ação na madrugada de terça-feira passada: ‘‘Meu pai sofreu uma injustiça. Qualquer filho de uma família unida faria alguma coisa para tirar o pai da cadeia.’’
Em entrevista à Folha ele conta como se envolveu na tentativa de resgate e o que o levou a se arriscar pela liberdade do pai. Celso não tinha passagem pela polícia. Ele é casado e tem dois filhos, um menino de três anos e uma menina de quatro meses. Ele e a mulher administravam uma loja de R$ 1,99 e uma bicicletaria. Um irmão mais velho e a mãe também auxiliam nas duas casas comerciais. O pai vendia roupas antes de ser preso, em junho do ano passado, acusado de estupro.
Consciente da ‘‘enrascada’’ em que se meteu, Celso diz que o único medo é ser perseguido pelos que condenaram o pai. Ele vai ser indiciado por tentativa de resgate de preso, com pena prevista de dois a seis anos de detenção. Por ser primário e não ter conseguido liberar nenhum preso da cadeia, Celso poderá ter a pena reduzida e cumpri-la em liberdade. ‘‘Vou ficar fichado na polícia, mas todo mundo que me conhece sabe que sou trabalhador e que nunca fiz nada de errado.’’
Na versão de Celso, ele teria colaborado com a tentativa de resgate, mas a idéia teria sido de outro rapaz, conhecido como ‘‘Polaco’’ e que também tem o pai detido na cadeia de Mandaguari. Polaco teria entrado na delegacia e rendido o carcereiro. Celso teria ficado do lado de fora, no carro.
O delegado Zoroastro Neri Prado Filho diz que o carcereiro não identificou qual deles invadiu a delegacia porque a pessoa estava encapuzada. O delegado disse que a polícia não conseguiu localizar Polaco.
Celso é conhecido dos policiais porque costumava visitar o pai todas as semanas. Emocionado com a atitude do filho, Jorge Aparecido Basílio, 56, diz que não sabia da ação de resgate. ‘‘Coitadinho dele (Celso). Ele estava preocupado comigo porque faz 15 dias que eu não como. É duro a gente pagar por uma coisa que a gente não deve.’’
Folha Por que você tentou resgatar o seu pai?
Celso – Porque o que fizeram com meu pai foi uma verdadeira injustiça. A menina que fez o ‘‘au꒒ com o meu pai, todo mundo sabe, não vale nada. O irmão dela cansou de meter a faca nos outros, mas a polícia não fez nada. A mãe dela devia para o meu pai R$ 280,00 e de tanto o meu pai cobrar, eles inventaram este negócio aí. O juiz condenou meu pai, porque a menina falou que saiu com ele sete vezes. Se a menina falasse que o meu pai tinha saído com ela 50 vezes, o juiz daria pena de morte. Eu nunca vi um negócio desse. A Justiça de Mandaguari só ouve o lado da mulher, o lado da gente ela não ouve. Eu não aguentava mais ver o meu pai na cadeia. Só que, quando chegou na hora do resgate, eu me arrependi e fui embora.
Folha – Você não concorda com a pena aplicada ao seu pai?
Celso – Foi uma injustiça. Nem aquele maníaco lá do parque (motoboy que estuprou e matou mulheres em São Paulo) não deram isso para ele e ele matou. Meu pai não matou ninguém, não pegou ninguém a força. Ela (menina vítima do estupro) falou depois que quis e que foi por vontade. Não teve arma, não teve violência, nada. Estupro que eu sei é quando você pega uma pessoa a força. Quando usa arma. Não aconteceu nada disso.
Folha – Foi você quem planejou o resgate?
Celso – Eu não. Eu só queria ver o meu pai na rua. Eles que planejaram. Não fui eu quem rendeu o carcereiro. Foi outro rapaz que fugiu. Eu não entrei na delegacia porque me arrependi e fugi. Eu peguei o meu carro e fui embora. Se eu fosse bandido eu tinha matado os guardas (que o prenderam na manhã de terça-feira, em Campo Mourão). Eu nunca dei um tiro em ninguém.
Folha – De quem eram as armas?
Celso – Dois revólveres são meus porque eu tenho as lojas e eu tinha lá em casa as armas. A pistola é do outro rapaz (junto com Celso foi preso também Angelo Aparecido Benvindo).
Folha – Mas você tem o porte da arma?
Celso – Não.Comerciante sem passagens pela polícia e revoltado com a condenação do pai agora é seu companheiro de cela
Marcos NegriniREVOLTAJorge Aparecido Basílio e o filho Celso não se conformam com a pena de 15 anos de prisão por estupro: ‘‘Meu pai não matou ninguém, não pegou ninguém a força. Ela (menina vítima do estupro) falou depois que quis e que foi por vontade’’