Filho ilustre chegou há 35 anos
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quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Wilhan Santin<BR. Reportagem Local 
Tomazina - Dentro da paróquia Nossa Senhora Aparecida, em Tomazina (Norte Pioneiro), cidade centenária de 8,8 mil habitantes, repousam relíquias, acomodadas em um corpo de cera de um adolescente, que teria sido decapitado ainda no século 3 por soldados romanos. Um mártir que se recusou a negar sua fé em Jesus Cristo e acabou morto. Naquele tempo, o Império Romano não permitia a fé cristã e o adolescente, Santo Inocêncio, teve o mesmo destino de outros contemporâneos, como Santa Cecília e São Sebastião.
Ontem Tomazina parou para comemorar os 35 anos da chegada das relíquias. A história tem um enredo próprio. De acordo com os arquivos da paróquia, depois de decapitado, o corpo de Inocêncio foi recolhido pelos cristãos e depositado em uma catacumba - no caso a de São Calixto -, o que era comum na época.
Em 1833, o papa Leão XII ordenou e as catacumbas foram abertas. Os restos mortais de Inocêncio estavam em uma urna com a inscrição ''mártir''. Repartiu-se entre as paróquias italianas as relíquias encontradas em São Calixto. As de Santo Inocêncio, junto com as de São Benedito e São Tigrino, foram parar em Lendinara, onde ficaram até frei Carlos Maria, morto em 2002, decidir que as queria no Paraná.
Carlos Maria, um capuchinho agitado, servia em Tomazina e fazia de tudo para aumentar a fé do povo. Sabedor de que padres de sua congregação guardavam relíquias em Lendinara, iniciou conversas para conquistar a doação de Santo Inocêncio. ''Insistiu até conseguir'', atesta o frei Mario Massarente, 70, hoje morando na Itália. Ele também trabalhava em Tomazina e ajudou na ''missão diplomática''. ''O provincial de Veneza, Liberal Martignago, disse que se o povo de Lendinara concordasse poderíamos fazer o transporte. O povo concordou e assim foi feito'', recorda.
Frei Carlos Maria se encarregou do traslado. Os padres de Lendinara já haviam cuidado para que o crânio, ossos do tórax, do braço e das pernas - restos mortais do santo - fossem revestidos de cera, reconstituindo o corpo do mártir, que ganhou ares de perfeição, recebendo a cabeleira e as sobrancelhas, também relíquias que resistiram à ação do tempo. Um caixote de madeira foi providenciado para ''omitir'' a carga transportada, evitando assim todos os trâmites burocráticos para levar restos mortais de um país para outro. ''Ele (frei Carlos) veio rezando no navio para que ninguém descobrisse o santo clandestino'', conta Massarente.
Em 9 de novembro de 1975, depois de passar por São Paulo, as relíquias chegaram, de helicóptero, a Tomazina. Desde então, o mártir caiu nas graças do povo, que todo ano dedica um dia para festejá-lo.


