Filhas de escravos vivem 'guerra racial'
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de setembro de 2001
Valmir Denardin<br> Enviado a Quitandinha 
Duas irmãs idosas, descendentes de escravos, vivem isoladas no barraco miserável de uma pequena propriedade rural de Quitandinha (72 quilômetros a sudoeste de Curitiba), em guerra com seus vizinhos, todos brancos. Maria de Lourdes Clemente dos Santos -que diz ter 97 anos, mas possui documentos em que aparece com essa idade e outros segundo os quais estaria com 66-, e Ermerinda Clemente, 61, afirmam ser vítimas de preconceito racial, ameaças e grilagem de terras. Os vizinhos negam as três acusações.
Há quase seis anos, as irmãs movem uma ação reivindicatória no Fórum de Rio Negro (109 quilômetros a sudoeste de Curitiba), comarca à qual pertence Quitandinha, tentando reaver áreas de aproximadamente dois alqueires (120 mil metros quadrados), onde atualmente moram seis famílias.
Recente medição feita a pedido da Justiça constatou que as duas irmãs teriam, na verdade, direito a uma área bem menor: 4 mil metros quadrados, 25% da área de um alqueire. O juiz de Rio Negro, Hélio César Engelhardt, ainda não deu sentença no caso.
Maria de Lourdes tem documentos em seu nome que comprovam a propriedade de 2,5 hectares (pouco mais de um alqueire). Ela diz ter comprado a área de dois alqueires há 30 anos, por ''20 mil cruzeiros'' quando mudou com a irmã para Quitandinha, deixando Minas Gerais.
Além da suposta grilagem, as duas acusam os vizinhos de racismo, provocações e até de envenenar os animais que elas criam no sítio. ''Eles chamam a gente de negro e exu (o demônio, em algumas religiões afro-brasileiras)'', afirma Maria de Lourdes. Na última quarta-feira, quando a Folha visitou a propriedade, ela mostrou um preservativo masculino usado, que teria sido deixado no portão do sítio.
Ambas dizem viver sob ''terrorismo''. Por isso, reforçaram a cerca de arame com placas fórmicas e mantêm os dois cães e o gato amarrados, para evitar que cheguem às propriedades vizinhas. Segundo elas, 60 galinhas já teriam morrido envenenadas.


