Filha mantinha pai inválido em canil
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terça-feira, 25 de março de 1997
Paulo Pegoraro Sucursal de Cascavel 
Edson MazzettoOzuardo Dias da Silva, ao lado do cachorro; aposentadoria foi usada para construir o cômodoO ex-carpinteiro Ozuardo Dias da Silva, 55 anos, inválido, era mantido há 4 meses em cárcere privado por sua filha, Ana Maria da Silva, 24, e pelo marido dela, Dirceu Pichonski, 25, no bairro Tocantins, zona sul de Cascavel. Muito magro, Ozuardo estava confinado num cubículo parecido com um canil, ao lado de um cachorro, seu único companheiro diuturnamente. Ele recebia diariamente uma minguada porção de comida. Algumas pessoas disseram que ele chegava a comer a ração do animal.
O idoso foi retirado do local na noite de anteontem pela Polícia Civil, e levado a um hospital. O caso foi denunciado por vizinhos revoltados com o caso, embora tenham demorado para torná-lo público. Ana Maria da Silva trabalha no setor de enfermagem da Pediatria do Hospital Regional de Cascavel. Ela não foi localizada no hospital, nem em sua casa para falar sobre o assunto. O marido chegou em casa quando os policiais já estavam no local.
Ambos devem responder por manutenção de pessoa em cárcere privado e abandono a idoso. O canil nos fundos da moradia não tem janela para ventilação, e o telhado, bastante baixo, faz com que a temperatura interna fique muito quente. Um metro à frente foi aberta uma fossa-negra, mantida sem tampa, com risco direto à vida do idoso que tem dificuldades até mesmo para se arrastar. Não há acesso à rua, porque a única passagem existente foi impedida com colocação de um tanque e algumas tábuas.
Com dificuldade para articular palavras, em função de um derrame cerebral, Ozuardo Dias da Silva relatou que é separado da mulher e vivia com a filha há 5 anos, porque não tinha como pagar aluguel e morar sozinho. Ele recebe R$ 115,00 por mês da Previdência, dinheiro que é retirado por Ana Maria e o genro. Segundo Dirceu Pichonski, parte do dinheiro era usada para pagar a construção do canil, um espaço de apenas 2x2 metros que teria custado R$ 400,00.
O idoso diz que apanhava constantemente da filha. Ela me caceteava com um rodo, contou. Ozuardo nunca recebeu assistência médica. Vizinhos lembram que ele era um homem forte e que foi definhando rapidamente, e que constantemente o viam em meio a dejetos fecais e sem roupa, mas não comunicaram o fato à Polícia para evitar atritos. Um deles conta que perdeu o medo e denunciou, porque já não suportava ver tanta desumanidade. A Polícia Civil deve comunicar formalmente o caso à Promotoria.
Sem amparo Dirceu Pichonski diz que ele e a mulher fizeram tudo o que dava e que não podem fazer mais nada para amparar Ozuardo Dias da Silva. O vendedor, que a muito custo aceitou falar, relata que órgãos públicos e entidades assistenciais, inclusive asilos, foram procurados mas ninguém fez nada.
Segundo vizinhos, Dirceu e Ana Maria raramente são encontrados em casa, porque trabalham fora. Dirceu admitiu que o dinheiro da Previdência é retirado em nome de Ozuardo.
Dirceu e Ana Maria não visitaram Ozuardo ontem, no Hospital Santa Catarina. O idoso está sendo atendido pelos médicos Miguel Elvira e Cláudio Cardoso que, além de cuidados com higiene e alimentação, pediram a realização de uma tomografia para avaliar o quadro neurológico do paciente.


