Nos últimos 30 dias, a dona-de-casa Jandira Fabres dos Santos, moradora do Jardim Edy (Zona Oeste), tem perdido boa parte de suas manhãs e tardes na fila de espera de uma unidade básica de saúde, aguardando que a mãe, com a perna machucada, receba novo curativo. Dias atrás, além da espera no serviço de saúde, ficou mais de uma hora na fila do banco. Jandira, como a maioria dos brasileiros, já perdeu a conta de quanto tempo gasta diariamente em filas. ''É um absurdo. Hoje em dia é assim em quase todos os lugares, tem que ficar na fila até para morrer.''
Jandira tem razão. A improdutiva espera está presente nas mais diversas situações do dia-a-dia, até quando a intenção é o lazer. Além das filas para pagar a conta no banco, conseguir atendimento médico, requerer benefícios da previdência social, pagar a compra do supermercado, receber a hóstia das mãos do padre, entrar no ônibus, usar o banheiro do shopping, entrar na sala de aula, é preciso se posicionar atrás de alguém até para entrar no cinema, na boate ou no parque de diversões. Se tempo realmente é dinheiro, fortunas estão sendo perdidas nas longas esperas.
As filas se incorporaram de tal modo à rotina da população que poucos ousam questioná-las. ''Não tem outro jeito, as coisas são demoradas mesmo. Já estou acostumado a enfrentar filas. Quem não tem paciência é melhor que não venha'', afirma, resignado, o lavrador Valdomiro Ferreira dos Santos, de Tamarana (62 km ao sul de Londrina). Na última quinta-feira, apesar da perna quebrada, ele esperou mais de duas horas do lado de fora da agência central do INSS em Londrina, aguardando o início do atendimento.
Entre os poucos que questionam está o escritor Domingos Pellegrini Junior, que no início desta semana deu voz de prisão e, com a ajuda da Polícia Militar, levou à delegacia central o gerente de uma agência de banco da cidade. A acusação foi o desrespeito à lei municipal nº 9614/98, que determina 15 minutos como período máximo de permanência numa fila, em dias de movimento normal, e 30 minutos em datas de movimento excessivo, como o quinto dia útil. No momento em que chamou a Polícia Militar, o escritor estava há 28 minutos na fila. ''Havia mais de 60 pessoas na fila e só quatro caixas atendendo'', relata.
O gerente foi liberado sem que fosse lavrado o termo de flagrante. ''O delegado me informou, depois de duas horas de espera, que tratava-se de uma infração de lei administrativa, não penal, não cabendo portanto prisão em flagrante. Ou seja: depois da fila no banco, o ''correto'' seria eu enfrentar outra fila no Procon (Procuradoria de Defesa do Consumidor), que, no máximo, multará o banco, e as multas devem custar ao banco menos que a contratação de funcionários para atender os clientes, sem os quais o banco não existiria'', argumenta o escritor.
Pellegrini acredita, porém, que o que fez serviu de alerta. ''As instituições financeiras são as únicas hoje em dia que têm lucros bilionários. A população precisa exigir que a lei seja cumprida.'' Ele lembra que a mesma legislação que determina o tempo máximo nas filas, prevê a distribuição de senhas para os usuários, com uma previsão do tempo de espera. Apenas um banco, porém, já implementou este serviço em Londrina.
O coordenador do Procon, Gerson da Silva, admite o excesso de filas em diversos serviços, mas lembra que é preciso fazer uma diferenciação entre empresas que prestam serviço público, como os bancos, e outras que vendem produtos. ''No caso dos bancos, o consumidor é praticamente obrigado a utilizá-los. Tudo hoje em dia gira em torno do sistema financeiro. Mas em outros serviços, como supermercados, a população tem o poder de decidir em qual comprar.''
Silva recomenda que os clientes exijam dos bancos as senhas com o horário de chegada. ''Depois, a pessoa deve exigir um visto do funcionário, contendo o horário de atendimento. De posse desta comprovação, ela pode registrar uma queixa individual no Procon.''

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