Cambé São só 15 senhas. Não importa se você chegou às 8 ou às 4 horas, se está atrasado para o trabalho ou se paga seus (inúmeros) impostos: se tiver o azar de ser o 16º da fila, vai ter que voltar outro dia. É o drama vivenciado atualmente por quem precisa tirar a carteira de identidade em Cambé (13 km a oeste de Londrina).
No velho escritório montado nos fundos da sede da prefeitura municipal, o atendimento começa às 8h30. Bem antes, porém, vários usuários já aguardam em frente à porta. O cansaço estampado nos rostos antecipa o que eles relatam à reportagem. ''Hoje, quando cheguei, só tinha eu e Deus. Estou aqui desde às 4 horas. Já vim seis vezes e não consegui ser atendida. De hoje não passa'', sentenciou a vendedora Kátia Cristina Fazan, 39 anos, número 1 da fila na manhã de ontem.
Enquanto aguardam, alguns conversam como se fossem velhos amigos - na verdade, conheceram-se nas inúmeras esperas mal-sucedidas da fila do Registro Geral (RG). ''Também já vim seis vezes. Moro num sítio, a 23 quilômetros daqui, e sempre trago as crianças porque não tenho com quem deixá-las'', comentou a dona-de-casa Lenice Massacani, 34, junto às filhas Giovana, de 5 anos, e Priscila, 11.
Além do sono e do tédio comuns a todos os que esperam, cada um relata um prejuízo particular que acentua a revolta pelas condições de atendimento. ''Sou professora e estou perdendo uma reunião pedagógica. Tenho urgência em providenciar o RG do meu filho, porque o patrão dele exigiu. Como ele tem só 15 anos, preciso acompanhá-lo'', explicou Marlene Paes Mafra, 39. ''Tive que deixar sozinhos os funcionários na empresa pelo qual sou responsável para voltar aqui e ver se hoje finaliza essa novela'', torceu Moacir Gobetti, 44. Ele e outros entrevistados afirmaram que estão com a taxa cobrada pelo RG paga há mais de três meses, apesar de ainda não terem conseguido o serviço.
Os pedidos de RG em Cambé ficam a cargo de um único funcionário, cedido pela prefeitura, que também é responsável por protocolar carteiras de trabalho e atestados de antecedentes criminais, entre outras funções. Ao distribuir as senhas, por volta das 8h30, percebe-se no servidor Anderson Inocêncio, 22, uma expressão tensa: ele vê que a fila é maior que o número de atendimentos e sabe que vai ouvir reclamações. ''As pessoas se revoltam e ameaçam partir para cima. Mas não podemos fazer nada, porque a regional de Londrina nos repassa apenas 15 senhas por dia para a 1 via de RG'', justificou.
A empregada doméstica Vanderléia dos Santos, 33, foi uma das usuárias que não conseguiram ser atendidas ontem, embora a fila tivesse pouco mais de 20 pessoas. ''Amanhã vou ter que vir de madrugada. Só não sei como, porque dependo de ônibus.''

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