Figura controversa, desbravador deixou mata com seu sobrenome
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terça-feira, 24 de dezembro de 1996
Célia Baroni 
O menino com uma floresta no bolso morreu. Mas Olavo Godoy, antes de partir, deixou sementes de tenacidade em meio às perobas da mata que leva o seu sobrenome. Ele era assim, sempre foi. Brigava com sua mãe para plantar as sementes encontradas e cuidadosamente guardadas nos bolsos das calças. A mania lhe causava problemas até na escola, onde a professora não compreendia os sonhos do garoto que não pensava em estudar e só queria ter um espaço para plantar.
Ele nasceu em Campinas (SP). A mãe e a professora não poderiam imaginar que ele se tornaria um grande fazendeiro - e as sementes do seu bolso ocupariam a imensidão das plantações. Muito menos imaginavam que a tenacidade e insistência em preservar a vida das sementes jogadas fora por outros seria a grande luta, a paixão de sua vida.
Como em alguns contos de fada, o pano do bolso de sua calça se transformou na grandeza de uma floresta nativa com 675 hectares. Intocada e preservada. Hoje, conhecida pelo nome oficial de Parque Estadual Mata do Godoy.
Mas nem tudo é conto de fada na biografia do desbravador. Figura controversa, Olavo Godoy chegou ao norte do Paraná em 1932, acompanhado de seu pai e de dois irmãos. Tinha então 17 anos, e nunca mais deixou a região. Sertanejo, fazendeiro, ecologista e pioneiro de Londrina, Olavo Godoy e sua família conseguiram o que parecia impossível. Passaram pelas crises da cafeicultura e pelas carências da agricultura. Mas, em 50 anos, nunca mexeram na mata, uma reserva que poderia ter significado facilidades financeiras nas épocas mais árduas.
A preservação da mata era uma questão de honra para os Godoy, iniciada pelo irmão Álvaro, uma figura quase folclórica pelo radicalismo em defesa da reserva. Olavo seguiu os passos do irmão. Cozinhei pele para beber o caldo. Foi assim que nunca me prendi a nenhuma instituição bancária, disse Olavo Godoy em entrevista concedida à Folha em 1990.
A perseverança lhe valeu os títulos de Cidadão Honorário do Paraná, concedido pela Assembléia Legislativa em 1990, e o de Cidadão Honorário de Londrina, em 1993. Mas lhe rendeu também muita dor de cabeça. Brigas intermináveis com o Incra, devido à cobrança de taxas e impostos como se a mata fosse improdutiva. Negociações exaustivas com governo do Estado até a transformação da área em Parque Estadual, em 92.
Conquistei um ideal, o meu sonho. A maior felicidade que almejava era viver com a natureza. E consegui. A fazenda representa para mim o meu mundo. Só me sinto bem lá. Então, mesmo com dissabores e muito trabalho, eu me dou por satisfeito. Posso dizer que venci, falou em outra entrevista à Folha, concedida em 1990.
Olavo Godoy nunca se casou e deixou as terras da fazenda Santa Helena para os sobrinhos Álvaro e Josyê Godoy. A doação foi consumada no ano passado, quando ele já estava com o organismo tomado pelo mal de Parkinson e apresentava dificuldades para se comunicar.


