Fiel interrompe padre que falava de racismo
Dimitri do Valle
De Curitiba
Depois de não receber autorização da prefeitura para protestar na Boca Maldita no sábado passado, a comunidade negra de Curitiba passou por outro momento constrangedor no Dia Nacional da Consciência Negra. Durante uma missa afro realizada na tarde de sábado na Catedral Basílica Metropolitana de Curitiba, um fiel católico ficou indignado com o sermão do padre Agenor Martins. O religioso, que é negro e trabalha na diocese de Paranaguá, falava sobre os dramas vividos pelos descendentes dos povos africanos que ainda hoje sofrem com o preconceito racial no Brasil.
O fiel interrompeu a fala do padre e disse que a catedral não era o local para fazer aquele tipo de discurso. O homem não identificado acusou ainda os negros de tentarem acirrar o racismo. Ele e mais cinco pessoas se retiraram da igreja, lotada de pessoas que assistiram atônitas ao gesto de intolerância do fiel. No final da missa, José Maurino de Oliveira Martins, integrante dos Agentes de Pastoral Negros, pediu para falar sobre o gesto inesperado que atrapalhou a celebração.
Não fomos nós que inventamos o preconceito racial, defendeu-se Martins, que explicou ainda que a intenção da missa afro era unir todas as raças que habitam Curitiba e partilhar com os presentes a história de Zumbi dos Palmares, a luta contra a escravatura, o racismo e as vitórias do povo negro. Queremos apenas igualdade de oportunidades. São 500 anos de Brasil, sendo que mais de 300 anos de escravatura. Por tudo o que o nosso povo passou, é precisa celebrar a vitória da resistência, discursou.
Maurino pediu que o revoltado fiel tivesse mais respeito durante a celebração e classificou o protesto como um choque cultural. Coube ainda uma severa crítica a Igreja Católica, que teria se omitido nos tempos de escravatura. Se a Igreja estivesse mais ao lado das senzalas do que da casa grande, mais ao lado das favelas do que dos palácios, a história seria outra, afirmou.





