A operação policial de combate a jogos de azar deflagrada anteontem, em todo o Estado, não inibiu a atividade de cambistas em Londrina. Alguns tiveram o cuidado de esconder blocos de apostas, mas os clientes cativos não encontraram dificuldades para jogar nos pontos habituais, inclusive no Centro da cidade.
''Sempre foi assim: às vezes entra um delegado novo, ou o governante quer mostrar serviço, e eles resolvem fazer uma pressãozinha. Depois abaixa a poeira, e todo mundo continua fazendo o jogo'', define o cambista Esquilo, 58 anos, que aceitou conversar com a Folha. Ele trabalha com jogo do bicho em Londrina desde o início dos anos 70 e viveu a ''fase áurea'' da atividade. Ontem, atuou no local de sempre.
Não é segredo para ninguém que existem centenas de locais de apostas de jogo do bicho no município. A maioria é discreta: uma mesinha colocada no canto de um bar ou mercadinho, um bloco repousado sobre o balcão de uma banca de jornais. Mas há também os cambistas que passam pelo Calçadão anunciando o negócio em alto e bom som. O fato é que quem quiser ''fazer uma fezinha'', em qualquer bairro da cidade, não precisa andar muitos metros.
''O cara que tá acostumado a jogar nem disfarça, não tá nem aí se tem alguém olhando'', diz Esquilo. O aparente destemor de cambistas e apostadores em relação à lei, que trata o jogo do bicho como contravenção penal, mostra o quão incorporado ele está à cultura do brasileiro.
Além disso, assim como a pirataria, o jogo é uma atividade ilegal que muitas vezes ganha a conivência da sociedade porque gera renda a quem ficou à margem do mercado de trabalho. ''Se não fosse isso, muitos de nós ficariam de mãos abanando. Com o bicho, a gente garante uns troquinhos, apesar de não ser registrado'', justifica o cambista. Ele lembra que o jogo de azar também emprega recolhedores (aqueles que passam pelos pontos recolhendo as apostas), conferentes e guarda-costas, entre outros.
Pela banca de Esquilo, passam cerca de 200 pessoas por dia. Apesar do bom número, ele afirma que já houve tempos melhores para o jogo do bicho. ''As pessoas apostavam mais alto antigamente. Também foram surgindo mais jogos do governo para concorrer com a gente. Nosso rendimento caiu. Nos anos 70, a gente ganhava cesta básica, peru de Natal. Hoje não tem nada disso'', conta.
O delegado-chefe da 10Subdivisão Policial (SDP), Sérgio Barroso, disse que ainda não é possível afirmar quem são os cabeças do jogo do bicho em Londrina atualmente. Segundo ele, após os primeiros flagrantes em supostos pontos de jogo, a polícia está realizando investigações para identificar os controladores.

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