O excepcional não é aprender coisas, como amarrar o cadarço do sapato sem dar nó cego - tarefa corriqueira para a maioria das pessoas - mas andar sobre o cotidiano, com um olhar especial, percebendo que a vida, mesmo sem se compreender toda a dimensão, começa a ter sentido quando entendemos o valor de pequenas descobertas, como fazer um laço perfeito no cordão do calçado.
Foi assim, aprendendo a amarrar os sapatos e outras tarefas do dia-a-dia, que Cláudia Regina Mazzo, 23 anos, ganhou confiança para não tropeçar mais nos limites que a deficiência mental coloca no caminho dos que têm uma vida especial, com a ajuda do Instituto Londrinense de Educação para Crianças Excepcionais (Ilece), que está completando 45 anos.
Um culto ecumênico em ação de graças será realizado hoje, às 9h30, na subsede da instituição (Avenida Eurico Gaspar Dutra, 80) para comemora a data. Durante o evento vai ser inaugurada a nova quadra poliesportiva, construída com recursos do governo estadual.
Com a segurança dos que firmam os pés nas próprias escolhas, Cláudia conta que já frequentou o ensino especial nas escolas tradicionais, preferindo voltar para o Ilece.
''Daqui eu só saio se o Senhor meu Deus me buscar. Gostei de estudar numa sala especial, mas aqui é o meu lugar. Todo mundo se respeita. Na outra escola, os alunos costumam levar canivete, revólver. Existe muita violência. Aqui não. A gente entra de um jeito e sai mudado'', avalia.
Por essa mesma porta que Cláudia entrou , atualmente 325 alunos do maternal à educação escolar e educação profissional também fazem a sua entrada para uma vida com mais autonomia. Alguns conseguem lugar no mercado de trabalho, como empacotadores de supermercado, áreas administrativas e até operários de indústrias. Direito garantido em lei, que prevê que as empresas que empregam acima de 100 funcionários devem reservar uma cota de 5% para deficientes físicos ou mentais.
''Morei num orfanato até os 18 anos. Hoje em dia poderia até estar preso. Não teria nenhuma profissão'', afirma o serigrafista Devanil Jesus Maciel, 26 anos, ex-aluno do Ilece, que hoje trabalha na própria instituição filantrópica, abrindo um parênteses para colocar o carinho que tem com os professoras.
''Se não fosse a mamãe Zenilde...'' - fecha o parênteses com a lembrança de uma delas.
Desde que há 45 anos, uma reunião na casa do pediatra Issao Udihara abriu a primeira porta da instituição, que de lá tem escapado histórias que, se não fosse o trabalho multidiscipliar, envolvendo psicólogos, pediatras, pedagogos e assistentes sociais, teriam um outro enredo.
''O Ilece representa a continuação da vida da gente. Tudo o que meu filho aprendeu foi na escola. Para mim, ele é uma pessoa normal. Sei que tem limitações, mas não me faz passar vergonha'', conta a sua história e a de seu filho dentro da instituição,Ivonete Antunes Martins.
A dona de casa descobriu somente aos oito meses de idade do filho, Marcos Antonio Martins, 39 anos, que tinha sequelas provocadas pela falta de oxigenação no cérebro no nascimento. Hoje, a mãe ajuda as mães que chegam à instituição, pela primeira vez, a se manterem em pé diante do abalo da notícia de ter um filho especial.
''Conversamos muito com elas, passando a nossa experiência para que evitem os erros que a gente cometeu e a aceitar a situação'', afirma.
É um caminho ladrilhado com perguntas.
''Os pais passam por várias fases, perguntando se a criança vai andar, falar e, à medida que o deficiente vai crescendo, vê que os problemas são outros, mas as perguntas continuam. Como será que vai viver quando os pais morrerem? Quem cuidará do filho?''- exemplifica a psicóloga Sara Cristina Livoratti.
Respostas que os alunos do Ilece vão dando através do trabalho individualizado.
'' Enquanto as salas de aula convencionais têm uma média de 30 alunos, na instituição não ultrapassa sete estudantes,com profissionais de formação em Educação Especial'', explica a diretora do Ilece, Luciane Eiras Pape.
''Existe uma ensiedade da família, achando que o resultado da escola aparecerá em dias e que logo a coisa estará solucionada'', acrescenta o presidente do Ilece, Braz Rodrigues Neto, lembrando que a instituição é a segunda escola mais antiga do Paraná para alunos excepcionais.
Um trabalho que acontece dentro e fora da escola, envolvendo as famílias, e que a gente pode conhecer na loja (Avenida JK, 1.792) de produtos confeccionados pelos alunos, como papel reciclado, bordados, embalagens e rodos. Peças que mostram como pode ir mais longe, quem aprendeu com paciência, coisas simples do cotidiano, como amarrar os sapatos.

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