''Cem anos, Laidinha, estou fazendo cem anos''. Dona Lica, ou melhor, Dolores dos Santos, repete a mesma frase vezes sem conta. Voltou a ser criança e está na maior expectativa com a festa de aniversário que a irmã Adelaide dos Santos Faust, a Laidinha, prepara para ela hoje. As duas moram sozinhas numa casa no Jardim Semíramis, Zona Norte de Londrina. Os pais e os dez irmãos já morreram. Dona Lica nunca se casou e Laidinha, viúva desde 98, não teve filhos. No entanto, a casa vai ficar cheia de sobrinhos, amigos e vizinhos.
O centenário de dona Lica traz à tona lembranças da memória prodigiosa de Laidinha. ''Chegamos a Londrina no dia 15 de agosto de 1934. Meu pai era fazendeiro no interior de São Paulo e se tornou um pequeno comerciante aqui. Nossa loja ficava na Avenida Paraná, bem na frente do Coreto. Passei minha infância por ali, vendo o mato virar cidade'', conta. Aos 81 anos, ela também guarda o bom gosto dos tempos de costureira. Os brincos e o batom, combinando com a roupa, entregam uma das características comum às duas irmãs: ''Sempre fomos muito vaidosas'', confessa Laidinha, rindo. Agora que Lica já não enxerga mais, é ela quem arruma a irmã.
Dona Lica não consegue mais andar e fala muito pouco. ''Até esses dias, o divertimento dela era assistir futebol na televisão. Ela torcia para o Santos e para o Corinthians e não perdia um jogo. Quando era um time contra o outro, qualquer que fosse o resultado estava bom'', lembra Laidinha.
A rotina das duas irmãs é de um companheirismo que transcende qualquer definição. Laidinha adivinha os movimentos, necessidades e desejos de Lica, e se orgulha da saúde da irmã. ''Ela só toma vitaminas e remédio para pressão'', ressalta. Ela mesma prepara a comida de Lica, o banho, a troca de roupas. ''Agora, é como se ela fosse minha filha. Ela ajudou a me criar e agora eu estou terminando de criar ela''.
A festa, que começa às 4 da tarde, vem sendo esperada há muito tempo. ''Quando ela fez 90 anos, a Lica me disse que iria chegar aos 100. Parece que ela sempre soube disso'', relembra Laidinha. Depois, confessa uma preocupação: ''Eu não sei não se vou viver tanto assim. Para mim vai ser muito ruim chegar tão longe na vida. Eu estou aqui para cuidar da Lica, mas quem vai cuidar de mim?''. Já na porta de casa, se despedindo da reportagem, Laidinha recupera o otimismo: ''Ano que vem vocês podem voltar para a festa dos 101''.

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