Festa do moti reaviva tradição japonesa
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domingo, 29 de julho de 2007
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Única criança em uma mesa dominada por mãos experientes, Beatriz Lissa, 5 anos, ajuda o grupo a enrolar o moti, bolinho japonês à base de arroz. Com as mãos sujas de farinha, ela mal sabe que está contribuindo para algo muito maior: a sobrevivência de uma tradição que corre o risco de ser extinta.
Reavivá-la entre os nipo-descendentes e torná-la conhecida entre os demais brasileiros foi a razão da ''Pré Fest Moti Tsuki'', realizada ontem pelo grupo Hikari na Associação de Funcionários da Embrapa, na Zona Sul de Londrina. Cerca de 500 pessoas adquiriram convites e eram aguardadas no evento, que reuniu outras tradições japonesas como o taiko (tambores), o origami e o tanzaku - papeletas onde as pessoas colocam seus pedidos e as penduram em bambus.
Mas a estrela da festa foi mesmo o moti. Não aquele que se compra prontinho e embalado nas gôndolas dos supermercados, mas o moti dos primórdios, agente de confraternização ao reunir homens e mulheres em torno de seu preparo. ''Antigamente convidavam-se os amigos para preparar a massa junto. Hoje a pessoa faz e manda para os vizinhos. O objetivo dessa festa é tentar reabilitar uma tradição que devagarinho está sendo esquecida'', diz o advogado Luiz Kenhiti Kuronato, coordenador do grupo Hikari.
Antigo e moderno - Com 50 anos e sem nunca ter ido ao Japão, o próprio advogado afirma que ainda está fazendo descobertas sobre a tradição. A idéia de promover a ''pré-festa'' - em alusão ao famoso evento do primeiro dia do ano, quando a colônia também se reúne para preparar o moti - surgiu justamente quando Luiz soube que o bolinho também faz parte das festividades japonesas em homenagem aos mortos. Lá, entretanto, o Dia de Finados é comemorado em agosto.
Como que imitando a vida, o antigo e o moderno foram postos lado a lado na festa deste domingo. Todos tiveram a oportunidade de amassar um pouquinho o moti gome (arroz especial) no pilão de madeira, artigo praticamente aposentado. Nos dias de hoje, a maioria dos que ainda fazem o moti sozinhos utilizam máquinas, que batem o bolinho automaticamente. Elas também estavam lá, para agilizar o preparo da massa que saía do equipamento direto para mãos idosas como a de dona Kioko Yamamoto, 84, ou infantis como a da pequena Beatriz.
''Ela fez questão de vir, assim como sempre ajuda a fazer o moti em casa. Só que lá a gente usa a máquina; aqui, ela vai ver o bolinho sendo amassado no pilão pela primeira vez'', contou a mãe da menina, a enfermeira Norma Ayako, 40. Seu pai, avô de Beatriz, fabrica as máquinas de fazer moti há quase uma década e também foi à festa. ''Já fiz em larga escala, hoje só por passatempo. Quem compra é mais aquele que fabrica o moti em casa ou no sítio e vende na feira'', comenta George Matsumoto, 76.
Questionado se lamenta a perda da tradição do pilão, seo George resume com sabedoria e resignação: ''não tem jeito''. ''O pessoal mais moderno quer acompanhar a evolução do mundo. E o antigo método era bem mais cansativo'', observa.
Raízes ancestrais - Para o coordenador do Hikari - grupo cultural e solidário criado há um ano e meio em Londrina - os nipo-brasileiros têm hoje, mais do que os próprios japoneses, a responsabilidade de manter vivas as raízes desse povo. ''O Japão antigo é o Brasil de hoje. Tem gente que vem de lá e se surpreende ao encontrar no nosso país tradições que sumiram no Japão'', diz Luiz.
De máquinas ou pilões, os bolinhos feitos ontem foram distribuídos com o mesmo espírito e desejo que movia os ancestrais. ''Dizem que o moti era a comida dos deuses. Quem leva o bolinho está levando também os deuses para casa.''


