O cheiro do curau, a textura dos grãos de milho cozido, o gosto do frango caipira. Mais do que o prazer de saborear uma comida bem feita, a 9 Festa do Milho do Distrito de Paiquerê (35 km ao sul de Londrina) significou, para muitas famílias, um breve retorno ao passado. O evento começou na sexta-feira e terminou ontem.
''Fui nascido e criado no sítio. Isso aqui não é novidade pra mim, mas é bom para matar as saudades'', disse o aposentado Nilson Rocatelli, 52 anos, entre uma garfada e outra, no tradicional almoço de domingo da Festa do Milho. Ele é o patriarca de três famílias, residentes em Londrina e Cambé (13 km a oeste de Londrina), que se reuniram para conhecer o evento.
''Gostei muito. A gente lembra de quando morava na roça. Parece que essas coisas estão acabando'', observa a esposa de Nilson, Cleuza da Silveira Rocatelli, 51. Mas se depender de jovens como a nora dela, a estudante Kamila Fernandes, 22, a tradição não se extingue tão cedo. ''Eu conheço bem esses pratos, apesar de ter nascido na cidade. E como sempre que posso, porque gosto mesmo'', afirma.
Para os Gonçalves, outra família grande que visitou Paiquerê nesse domingo, as receitas extraídas do milho remetem a um passado ainda mais distante. ''Sou filha de italianos e o milho é típico da culinária da Itália. Sempre que tem alguma festa ligada a essas tradições, a gente procura ir'', afirma a artesã Jucelen Conazzi Gonçalves, 50, ela mesma cozinheira de broas e pamonhas.
Raízes italianas, vida no campo. As duas vertentes se juntaram na mesa de outra família Gonçalves. Enquanto Valquíria, 48, fugia das saladas e carnes do dia-a-dia, sua sogra, Madalena, 67, aproveitava a folga da cozinha. ''Estou acostumada a cozinhar essas coisas porque moro em chácara, mas não ter de preparar dá outro sabor...'', diverte-se.
Por trás da tradição da comida nas mesas, fortes mudanças são percebidas na produção do milho na região de Paiquerê. Enquanto a festa chega a sua nona edição, o número de produtores do grão no distrito vai diminuindo. Ali, como no resto do país, o milho vem perdendo espaço para a soja. O resultado disso é visível nos bastidores do evento: as quinze toneladas de milho destinadas à festa foram adquiridas no distrito de Guairacá, a 13 km de Paiquerê.
''O clima também não ajudou. Tivemos uma época de pouca chuva, que prejudicou a qualidade da produção'', explica o presidente do Conselho Distrital de Paiquerê e coordenador da festa, Josias Pereira da Silva. Se no campo a situação foi difícil, na festa Silva só tinha motivos para comemorar. Ontem, o coordenador calculava que, até o final do evento, o público deveria atingir de 25 a 30 mil pessoas. A estimativa inicial, de 15 mil pessoas, havia sido ultrapassada já no sábado.

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