Lúcio Flávio Moura
De Foz do Iguaçu
Especial para a Folha
Cerca de 150 pessoas – a maioria crianças – que participaram de uma festa de rua em homenagem ao Dia da Criança, no Jardim Califórnia, região norte de Foz do Iguaçu, foram intoxicadas depois de comer bolo e tomar refresco artificial. Entre às 18 horas do feriado de terça-feira e às 16h30 de ontem, 80 pessoas foram atendidas no pronto-socorro da Santa Casa Monsenhor Guilherme, no centro da cidade. Segundo Guilhermo Turdera Ross, médico que coordenou o atendimento às vítimas, apenas 20 passariam a noite no hospital tomando soro, o restante seria liberado.
‘‘Tudo indica que o tempo entre o preparo e o consumo do bolo foi muito grande, o que pode ter provocado a infecção intestinal nas vítimas’’, acredita o médico. Ele deve sugerir hoje que a Vigilância Sanitária fiscalize festas populares no próximo verão. ‘‘Com esta temperatura, se não for aplicado normas de higiene no preparo destes banquetes, o risco de intoxicação é muito grande’’, justificou Ross.
A festa foi promovida pela dona de casa Rosina Cézar Guerra, 50 anos. Desde 1993, quando teve o primeiro filho aos 44 anos e considerou isto uma ‘‘graça divina’’, a evangélica Rosina fecha a rua onde mora e, com a ajuda de empresários, distribui bolo e refresco, preparados por amigas do bairro. Depois as crianças se divertem em gincanas.
Ontem, sob um sol que fez os termômetros de rua alcançarem 32 graus, pelo menos 700 crianças e aproximadamente 50 adultos devoraram 100 quilos de bolo e 500 litros de um refresco de uva em duas horas. Alguns vizinhos disseram que muitas crianças exageraram no consumo do bolo, que além de farinha de trigo continha leite, ovos, creme de leite caseiro, gordura vegetal, margarina e doce de leite.
A própria dona de casa entregou ontem amostras do bolo e do refresco para a Vigilância Sanitária. ‘‘O bolo estava fresco. Nós terminamos de preparar ao meio-dia e a montagem durou umas duas horas. Em seguida, ele já foi servido’’, defende-se Rosina. De acordo com a dona de casa, cada amiga que se comprometeu a ajudá-la preparou a massa, a cobertura e o recheio em casa. ‘‘Não posso ser responsabilizada sozinha’’.
Rosina e o marido, o dono de bar Olindo Guerra, 64 anos, diz que comeram o bolo e tomaram o refresco mas não sentiram nenhum dos sintomas de intoxicação (cólicas seguidas de diarréia, vômitos e náuseas).
Naiara Santos Rodrigues, de 21 meses, não teve a mesma sorte. Ontem à tarde, a menina, que permaneceu cinco horas na enfermaria da Santa Casa recebendo soro, não parava de chorar. ‘‘Ela amanheceu vomitando sem parar e ficou bem fraca. Ela está assustada com o hospital’’, disse a mãe, a desempregada Alzamira dos Santos Rodrigues, 23 anos, que comeu e bebeu na festa mas não foi intoxicada.
‘‘O bolo estava delicioso, não parecia que estava estragado’’, disse a aposentada Zeferina Rodrigues dos Santos, 59 anos, uma das 27 pessoas que estavam recebendo soro e analgésicos na enfermaria. Zeferina disse que não tomou o refresco. ‘‘Nem queria comer, só experimentei um pedacinho quando a festa já estava acabando’’, lamentava.

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