Na manhã do último sábado, a aldeia de índios guaranis, localizada em Santa Amélia (63 km ao Sul de Cornélio Procópio), acordou em festa. E a razão para a celebração não teve relação alguma com o carnaval. Crianças, jovens, adultos e idosos da tribo e de aldeias vizinhas estiveram reunidos para parabenizar Jussara Mariana da Silva, de 26 anos. Ela é a primeira índia da aldeia a concluir o terceiro grau. Em dezembro do ano passado, graduou-se em Licenciatura em Geografia, na Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Cornélio Procópio (Faficop).
Se garantir um diploma universitário é motivo de alegria para qualquer estudante e familiares, a conquista da jovem indígena veio com um gostinho de vitória também para a comunidade onde cresceu. ''Nós precisamos de pessoas assim, inteligentes, para ajudar a nos organizar e a lutar lá na frente'', reflete o cacique da tribo, Mario Raulino Sampaio. ''São eles que vão defender nossos netos no futuro'', prevê.
Como toda ''festa de formatura'', com Jussara não foi diferente. Antes do início do evento, ela mal conseguia sair do quarto, preocupada com a arrumação do cabelo, maquiagem e escolha de acessórios, além das bebidas e comidas, que demoraram um pouco a chegar. ''Eu não esperava ganhar uma festa'', conta Jussara, sorridente, mostrando o piercing (um ponto de luz) colado em um dos dentes. E a família da formanda também não continha a ansiedade. Jussara é a caçula dos seis filhos de Joana e Isac da Silva, vice-cacique da tribo. Para Isac, ter conseguido formar a filha é muito gratificante. ''Fico muito contente, porque a gente não teve ''leitura'' e com o pouco que a gente tem, conseguimos ajudar. Não tem nem o que falar'', diz.
Na parte central da aldeia foi instalado um tipo de quiosque, com folhas cobrindo o teto e uma decoração de arcos, flechas e colares. O churrasco para as 25 famílias que vivem no local foi feito no estilo gaúcho; em vez de churrasqueira, a carne foi assada em um buraco aberto no chão.
Os preparativos para a festa incluíram também as crianças e os adolescentes da tribo. Ao som de violão, tambores e chocalhos, cerca de 20 meninos e meninas, todos enfileirados, em lados opostos, dançaram e cantaram para dar início às comemorações. Com pinturas no rosto, colares coloridos e alguns cocares, entoaram cantigas guaranis em homenagem à Jussara. A dança de roda também teve a participação da índia mais velha da tribo, Aparecida, de 93 anos. Segundo um dos presentes, o ritual é ensinado pelos pais aos filhos ainda pequenos e é realizado em sinal de agradecimento.

mockup