Festa celebra o arroz e sua fortuna
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de julho de 2008
Adriana Ito<br>Reportagem Local 
Os japoneses mais antigos costumavam dizer que o desperdício de um único grão de arroz gerava o desperdício de vários sacos desse grão. E estavam certos, já que, se cada casa joga no lixo um grão de arroz, o país inteiro está desperdiçando uma fortuna. Além de caracterizar o espírito de coletividade dos nipônicos, esse pensamento também ilustra o valor que eles dão para esse alimento específico.
E, se o arroz é tão importante que a palavra ''gohan'' (arroz cozido, em japonês) pode também significar a refeição inteira, o moti, conhecido por aqui como ''bolinho de arroz'', é símbolo de fortuna e prosperidade. Tanto que é tradicionalmente consumido no primeiro dia do ano, em uma espécie de sopa à base de algas e shoyu chamada ''ozoni''.
Para se fazer o moti, cozinha-se um arroz especial no vapor. Depois ele é socado em um pilão até ficar com a consistência certa para se moldar os bolinhos. O preparo, trabalhoso, reunia famílias inteiras, mesmo no Brasil. Mas, hoje em dia, é bem mais fácil e prático comprar o moti pronto ou fazê-lo com a ajuda do liquidificador. Com isso, todo o ritual do preparo em família foi se perdendo.
Foi para tentar resgatar essa tradição que o Grupo Hikari realizou ontem a segunda edição da Festa do Moti, na sede da Associação dos Funcionários da Embrapa, reunindo cerca de 500 pessoas para degustar o moti e o ozoni, além de promover um almoço de confraternização.
''Os nikkeis já não sabem mais como o moti é feito, que precisa de todo um ritual. Hoje em dia se compra pronto. Além de resgatar essa tradição, também queremos divulgar a cultura e promover a integração entre os nikkeis e também com os brasileiros'', afirmou o organizador Luiz Kuromoto, admitindo que mesmo em sua família não se socava o moti no pilão. Kuromoto é diretor do Grupo Hikari, um conjunto de amigos que promove ações com o objetivo de resgatar, divulgar e integrar a cultura japonesa na cidade.
Embora a maioria dos participantes fosse de nipo-brasileiros, os não-descendentes também aprovaram a iguaria. ''É um pouco diferente, mas eu gosto, principalmente do ozoni, que é mais temperado'', opinou Rosimar Naldos Palhares, 42 anos.
A convivência com nipo-brasileiros fez com que o filho dela, Bruno, de 19 anos, não apenas frequentasse os eventos japoneses, como também passasse a integrar um grupo de taikô (tambor japonês). ''Gosto muito da cultura, da disciplina deles'', comentou, acrescentando que também aprecia o moti, embora tenha achado ''grudento'' na primeira vez em que provou, há alguns anos.
Já a dentista Marisa Hatakeyama cresceu comendo moti em casa e tenta passar essa tradição para sua filha Carolina, 5 anos. ''Ela está aprendendo a gostar. Acho importante ensinar a ela não só isso, mas tudo o que pode acrescentar para a cultura brasileira. É interessante essa miscigenação'', analisou.
Com apenas 6 anos, a pequena Maria Eduarda já adora moti. ''Eu gosto de qualquer jeito, sempre tem em casa, porque a gente compra ou minha vó faz.'' A avó é Mitsuko Hokamura, 73 anos, que aderiu à tecnologia e hoje prepara o moti no liquidificador.
Além desse recurso, quem prepara o moti em casa tem outra forma menos cansativa de fazê-lo. Há dez anos, George Matsumoto, 77 anos, inventou uma máquina que prepara a massa a partir do arroz cozido.
''O liquidificador corta as fibras do arroz, já a minha máquina, não. Com isso, o moti fica bem mais gostoso'', comparou. Suas máquinas foram utilizadas para preparar a maior parte dos mais de 100 kg de moti, mas a tradição de se usar essa iguaria como pretexto para uma boa confraternização, isso a tecnologia não substituiu.


