Nem sempre a casa é o local mais seguro para uma criança. Dentro dela podem morar vários perigos e para evitá-los os pais devem estar atentos. Nos meses de férias, o índice de acidentes domésticos costuma crescer. A grande maioria deles, no entanto, é previsto e pode ser prevenido. A primeira coisa a se fazer, na opinião do pediatra de Londrina, Alfredo Zepedda, é quebrar três mitos: os acidentes são inevitáveis, os acidentes são problema individual e, por último, para diminuí-los basta esclarecer pais e crianças.
Zepedda ressalta que a maior parte dos acidentes de qualquer natureza pode ser evitado. Basta tomar algumas providências práticas. ‘‘A criança de zero a dois anos faz parte de uma faixa etária de altíssimo risco. Ela sobe em tudo - cadeiras, gavetas, mesas - e pode sofrer quedas’’, observa o médico. Mas não são só os pequenos que estão sujeitos aos riscos do lar. Crianças acima de dois anos também estão expostas às armadilhas domésticas.
Como altura, a princípio, não assusta crianças, o médico aconselha os pais a não se mudarem para apartamentos, casas de dois andares ou mesmo casas em terrenos com declive, antes de colocar grades de proteção nas janelas. ‘‘É bom que também as portas tenham maçanetas que a criança não consiga abrir.’’ Outra dica é evitar móveis com vidro, contra os quais os filhos podem bater. Além do impacto, ele ainda pode sofrer cortes graves pelo corpo.
Dorico da SilvaHora do banhoA mãe Maria Nilce com Daiane, de 2 anos, que se queimou com água quenteMas é na cozinha que está o perigo mais grave, na opinião de Zepedda. ‘‘É lá que ocorre a maior parte dos acidentes graves, como queimaduras com fogo ou com líquido quente. A criança devia ser proibida de entrar nesta parte da casa.’’
Não é só o perigo de queimadura que assusta numa cozinha. Qualquer instrumento cortante pode ser uma arma perigosa na mão de crianças. Um segundo problema grave encontrado na cozinha são os produtos de limpeza.
‘‘Principalmente quando as mães trocam os produtos de frasco, transferindo-os para embalagens de refrigerante ou suco. As crianças bebem mesmo’’, alerta o médico. Não basta as mães colocarem esses produtos em lugares altos. Como criança tem o espírito de alpinista, o melhor é deixar tudo que é relacionado a limpeza trancado.
Para evitar que os filhos fiquem atrás das mães ou empregadas na cozinha, o conselho é colocá-los em lugar seguro, como no berço, num cercadinho ou mesmo instalar um portãozinho na porta da cozinha para impedir que eles entrem onde não devem. ‘‘Muitas vezes as mães estão no fogão mexendo com alguma coisa quente e não vêem que a criança está atrás dela. Ao se virar com a panela quente, elas tropeçam nas crianças e derrubam o líquido quente sobre elas’’, exemplifica.
Os perigos não acabam por aí. A asfixia é outra vilã doméstica e pode ocorrer de várias formas, desde o simples uso de cobertores até brinquedos que contenham pequenos objetos. ‘‘As crianças colocam tudo na boca e podem aspirar os objetos. Se a respiração for bloqueada, em quatro minutos pode ocorrer a morte’’, alerta Zepedda. Sementes de melancia e de laranja, botões e moedas estão na lista dos elementos que devem ficar distantes de crianças.
No caso de cobertores, o médico observa que não devem ser usados enquanto o filho estiver na fase de se mexer muito na cama - até um ano de vida, em média. Nos movimentos, ela pode se enrolar e se asfixiar. Os pais também devem ficar atentos a vasilhas com água. ‘‘A criança pode se afogar num balde de água’’, comenta.
Os cuidados não devem ser menores com tomadas, aquecedores elétricos (especialmente aqueles que têm resistências), armas de fogo, bebidas alcoólicas, plantas venenosas e até abajures que tiveram a lâmpada retirada e não reposta. Além do dedo, a criança pode colocar a língua no lugar da lâmpada.
Zepedda observa ainda que as famílias costumam ver os acidentes como algo individual, que ocorreu na casa do vizinho e, portanto, quem não está envolvido não tem nada a ver com isso. ‘‘Acidentes são problemas de saúde pública. Todos têm obrigação de ajudar a prevenir’’, sustenta Zepedda. Ele justifica: ‘‘Gasta-se muito dinheiro público para cuidar de acidentados. Uma pessoa com queimaduras graves, por exemplo, custa cerca de R$ 1 mil por dia, sem contabilizar honorários médicos.’’
De acordo com dados fornecidos pelo médico, os acidentes constituem o maior problema de saúde das crianças a partir de um ano e estão entre as cinco principais causas de morte.
Com relação ao terceiro mito - o de que basta informar os pais e crianças para que os acidentes sejam evitados - Zepedda ressalta que apenas isso não é suficiente. ‘‘É necessário tomar medidas concretas dentro de casa - ou da escola - para modificar o ambiente.’’

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