Feliz da vida aos 106 anos
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terça-feira, 08 de dezembro de 2015
Rafael Souza <br>Reportagem Local 
Tirando alguns incômodos na perna direita, que enfrente após uma pequena fratura fruto de uma queda há cinco anos, Ana Rosa Soares conta nem se lembra quando foi a última vez que precisou de um médico. "Estou muito bem, não tenho dor alguma. Também não tenho colesterol e minha pressão é controlada, tomo remédios. Estou vivendo muito bem". Quem diz isso é uma simpática senhora de 106 anos.
Ela é um exemplo de pessoa que alcança os 100 anos em boas condições de saúde, perfil que os médicos dizem crescer a cada ano em todo o mundo. Uma pesquisa recente realizada na Inglaterra apontou que o número de pessoas com 100 anos de idade ou mais aumentará 15 vezes até 2050, passando de 145 mil em 1999 para 2,2 milhões em 2050. No Brasil, os centenários eram 13,8 mil em 1991. Segundo dados do último censo, de 2010, são cerca de 30 mil pessoas.
A centenária, que vive no Conjunto Parigot de Souza 2 (zona norte), esbanja lucidez. A rotina tem poucas restrições. "Faço de tudo, lavo louça, coloco a roupa para lavar na máquina e às vezes ajudo a limpar a casa", pontua. Sem problemas de coração, a dieta alimentar também segue apenas indicações básicas e importantes para sua idade, como evitar alimentos pesados e exageros nos doces ou salgados. "Como de tudo, pouquinho, mas como", conta. Não fosse a lesão na perna direita, até a horta no quintal ainda teria cuidado especial por parte de dona Ana. "Era ela quem cuidava e só parou depois que machucou a perna", reforça José Valtair de Oliveira, técnico de enfermagem da Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro, um dos integrantes da equipe que sempre presta cuidados à idosa.
O sorriso fácil no rosto e o carinho são marcas registradas da "senhorinha", que já virou personalidade no bairro. Todo mundo por ali sabe quem é a moradora que já passou da casa dos 100 anos. A conversa com a reportagem começou um pouco tímida, mas aos poucos ela se soltou. Não ficou uma pergunta sem resposta. A conversa só foi interrompida algumas vezes quando a audição falhou. O que não falha é a memória, na qual o passado sofrido da vida na roça está bem vivo. A dona Ana conta com detalhes os dias mais difíceis de sua longa vida.
Nascida no interior de São Paulo em 1909, mudou-se para Ortigueira (Campos Gerais) ainda jovem. Morou alguns anos também em Ivaiporã (Vale do Ivaí) antes de chegar a Londrina, onde vive há quase 40 anos. Na casinha simples, tem a companhia da filha, Maria Madalena Soares, de 85 anos, fruto de um relacionamento que não chegou a virar casamento por ordem do pai, que lhe mandou embora de casa depois que engravidou. "Ficamos só eu e ela. Tive uma outra filha depois, que morreu há cinco anos. Nós sofremos muito, passamos fome. Na roça dormia só com um cobertorzinho, passava muito frio. Mas não chorava, só pedia a Deus que nos desse forças para seguir", recorda-se.
Força realmente não faltou e hoje a situação dela é muito melhor. Aposentadas, ela e a filha não têm regalias, mas vivem uma vida bem mais tranquila. A ponto até de dona Ana dizer, aos 106, que vive a melhor fase da vida. "Depois de velha, Deus teve dó de mim. Vivo muito feliz", revela.
A animação já lhe faz planejar o aniversário de 107 anos, em 20 de julho de 2016. "Ela já falou que quer bolo e vamos fazer mais uma vez. Todo ano a gente leva o bolo e canta parabéns pra ela", promete Valtair, que explica o porquê de tanto carinho. "Ela é o nosso xodó. É uma mulher humilde e amorosa, sempre trata a todos muito bem. Talvez seja por isso que já viveu tanto", elogia o funcionário da UBS.


