Feirantes reclamam de concorrência
Silvana Leão
De Londrina
Os feirantes de Londrina estão preocupados com as promoções tentadoras realizadas por algumas grandes redes de supermercado, que em determinados dias da semana colocam à venda produtos principalmente verduras, legumes e frutas com valores abaixo do preço de custo. Isto, somado à comodidade de fazer toda a compra para a casa no mesmo local, está afastando os consumidores das tradicionais feiras livres.
Os grandes supermercados estão acabando com as feiras, afirma Valdenir dos Santos, que há 12 anos mantém uma barraca de peixe. Ele conta que até dois anos atrás, chegava a tirar R$ 2 mil livres por mês. Hoje, a renda fica entre R$ 600,00 e R$ 700,00. Já não dá mais para sobreviver só disso, diz o feirante, que para complementar trabalha como segurança.
Um dos principais motivos da indignação de Santos é que embora adquira o produto dos mesmos fornecedores, não tem condições de usar a mesma tática dos supermercados. Para chamar os clientes, eles vendem abaixo do preço de custo, mas têm condições de ganhar em outros produtos, diz.
Ontem o feirante vendia seu peixe na Rua São Salvador (centro), onde, segundo ele, o movimento está caindo a cada dia. Acho que a tendência desta feira é acabar, com a instalação do Hipermercado Condor na região. Santos é um dos defensores de um pacto entre produtores e donos de supermercados nos moldes do que vem sendo feito em Curitiba como forma de evitar a venda abaixo do preço de custo.
Outro comerciante da feira, Osvaldo Andrade, é ainda mais enfático: Estas promoções são a desmoralização do produtor, que tem várias despesas para produzir, como insumos e mão-de-obra, e na hora de vender a mercadoria não tem valor. Andrade, que também é produtor rural, acha que, sem apoio, vai acontecer uma debandada maciça dos que ainda se mantêm na roça, causando falta dos produtos agrícolas no mercado.
A Folha não conseguiu entrevistar os responsáveis pelos grandes supermercados da cidade que adotaram a política de escolher um dia da semana para vender mais barato. No Carrefour, o diretor Edgard Marchiori explicou que este tipo de mecanismo de venda tem sido evitado. Estou no comércio há 20 anos e já vi muito pequeno produtor quebrar em função de políticas assim, por isso não compartilho da idéia de vender abaixo do preço de custo.
Marchiori lembra que, para poder comercializar tão barato, o empresário tem que tirar o lucro de outro lugar, e de qualquer forma o consumidor acabará prejudicado. Não há milagre, lembra.
Alheia aos problemas dos produtores e feirantes, a maioria dos consumidores aplaude a iniciativa dos empresários em fazer grandes promoções e levar para dentro dos supermercados do sapato às flores para o vaso da sala, passando por todos os gêneros alimentícios imagináveis. Hoje em dia é tudo muito corrido, não dá para ficar perdendo tempo, diz a professora aposentada Eny Feijó, que costuma fazer compras junto com o marido, o advogado Euzébio Feijó.
A professora acha que no supermercado a variedade é maior e há como escolher melhor os produtos, além da vantagem dos preços. A governanta Aparecida Ramos compartilha a mesma opinião, e conta que há cerca de dois anos abandonou a peregrinação pelo açougue, padaria e feira livre. Hoje fica de olho nos encartes promocionais e procura comprar o maior número possível de itens no mesmo local.
Mais conservadora, a dona-de-casa Alice Paloco não abandonou totalmente as feiras livres. É perto de casa e eu vou para comprar verdura. Ela acha, porém, que no supermercado a qualidade dos hortifrutigranjeiros é superior.Categoria acha que promoções dos supermercados nas seções de hortigranjeiros vendem produtos abaixo do preço de custo
Mário CesarDorico da SilvaFEIRA DA TERÇAUma das feiras de ontem em Londrina (acima), na região central da cidade: movimento fraco e queixas. Ao lado, o diretor do Carrefour, Edgard Marchiori: Estou no comércio há 20 anos e já vi muito pequeno produtor quebrar em função de políticas assim, por isso não compartilho da idéia de vender abaixo do preço de custoDorico da SilvaDorico da SilvaMário CesarO casal Eny e Euzébio Feijó (acima, à esquerda): mais variedade no supermercado, além da vantagem do preço. A governanta Aparecida Ramos, que há cerca de dois anos faz compras no sacolão do supermercadoMário CesarValdenir dos Santos: Já não dá mais para sobreviver dissoMário CesarOsvaldo Andrade: promoções dos mercados desmoraliza produtor





