Federação quer anular votação da Apae
Pedido será encaminhado hoje ao Ministério Público. Pais não votaram na assembléia que decidiu pelo desfiliamento da entidade
James Alberti
De Curitiba
Kraw PenasUma votação considerada arbitrária, em uma assembléia confusa e autoritária feita na tarde de sábado, definiu o desfiliamento da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Curitiba da Federação Nacional das Apaes. Os pais e associados da Apae não chegaram nem a votar porque não entenderam o processo de votação comandado pelo deputado estadual César Seleme (PPB), que assumiu a presidência da entidade local.
Kraw PenasDiscussão e TumultoO deputado estadual César Seleme (ao centro), que presidiu a assembléia, é acusado por familiares de excepcionais de tumultuar votação. Policiais militares foram chamados para controlar confusão em frente à entidade.No começo da assembléia, a vereadora Jane Rodrigues, que era presidente, pediu afastamento para dar lugar a Seleme. Uma nova entidade será criada, sem que tenha uma organização para fiscalizá-la, papel exercido hoje pela federação. A eleição da nova diretoria foi marcada para daqui 30 dias.
‘‘Não foi colocado em votação. Por favor, eu sou pai de aluno’’, esbravejava o serventuário da Justiça, João Fernando Lorenzon, 36 anos, após a suposta votação. Lorenzon pedia o direito, que lhe foi negado, de falar à platéia. ‘‘Como pai de aluno eu tenho direito de falar ou será que voltamos para 1964 e eu não estou sabendo?’’, questionava. ‘‘Ninguém entendeu a votação’’, concordava a aposentada Clarisse Takata, 45 anos, irmã de um deficiente. ‘‘O som não estava claro.’’
Os pouco mais de 30 minutos da sessão foram marcados por discussões acaloradas entre partidários de Seleme e associados que não concordam com a atual diretoria. Para familiares dos deficientes, houve armação. ‘‘Para mim isso não é uma assembléia. Ele (Seleme) decidiu sozinho’’, acusou a professora Maria Helena de Lima, 43 anos, irmã de um excepcional, que foi impedida de falar.
Logo após a sessão, o presidente da Federação Nacional das Apaes, deputado federal Flávio Arns (PSDB), afirmou que iria encaminhar hoje ao Ministério Público um pedido de anulação da assembléia. Segundo ele, a atual diretoria é acusada de uma série de crimes. Todos constam num relatório de uma auditoria feita, com o acompanhamento do Ministério Público, nos últimos dois meses – período em que a entidade de Curitiba esteve sob intervenção da Apae nacional. Jane Rodrigues havia sido afastada do cargo, mas no dia 28 do mês passado a Justiça lhe deu o direito de reassumir a presidência da entidade.
Conforme Arns, que também foi impedido de falar na assembléia, no último ano, houve superfaturamento de obras, desvio de alimentos e materiais de construção, apropriação indébita de dinheiro dos deficientes e uso de notas ‘frias’ para apresentação de contas. ‘‘A mesma empresa, a Distribuidora de Cosméticos Itaqui Ltda, fornecia medicamentos e massa de tomate, mas está fechada há mais de dois anos’’, disse a procuradora geral das Apaes do Paraná, Angelina Carmela Matiskei.
Segundo Seleme, as denúncias serão analisadas pela Justiça. ‘‘É o que eles dizem. A Justiça vai provar isso’’, afirmou. O desfiliamento, conforme o deputado estadual, ocorreu para que a Apae de Curitiba não ficasse sob o ‘‘arbítrio e autoritarismo’’ da entidade nacional. Impedidos de participar da assembléia, funcionários da Apae pediam exatamente o fim do autoritarismo, mas da atual diretoria. Agentes do Centro de Operações Policiais Especiais (Cope) impediam que eles entrassem na sala onde ocorria a assembléia. Policiais militares davam apoio do lado de fora do prédio.

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