Londrina
O presidente da Federação das Associações de Moradores de Favelas de Londrina, José Ricardo da Silva, 46 anos, sabe o que é estar desempregado e prestes a ser despejado da casa em que morava por falta de pagamento. ‘‘São essas pessoas as principais vítimas dos aproveitadores do comércio dos terrenos invadidos’’, explica José Ricardo.
Segundo ele, há em Londrina uma quadrilha especializada em organizar, invadir e depois vender os terrenos. ‘‘São umas dez pessoas’’, acredita o presidente da Federação. ‘‘A transação é feita em cartório, inclusive com o reconhecimento de firma’’, diz. ‘‘Os compradores são pessoas honestas, que encontram-se em situações financeiras desesperadoras’’, informa.
Os terrenos são vendidos por valores que variam entre R$ 50,00 e R$ 500,00, dependendo da área e da localização. Os ‘bandidos’ - assim José Ricardo os define - contam com a burocracia para o êxito desse tipo de negócio.
‘‘Os órgãos públicos demoram demais para regularizar uma área’’, salienta o presidente da Federação. Em Londrina, diz José Ricardo, existem em torno de 5 mil famílias sem-tetos. São famílias cujas rendas são de no máximo 2,5 salários mínimos.
‘‘Esses bandidos ameaçam as pessoas para que não os denunciem’’, ressalta. José Ricardo conta o drama de um senhor chamado por ele de Cláudio, que precisou fugir de uma invasão porque havia denunciado a presença dos ditos ‘bandidos’. O favelado teria sido forçado a mudar-se da invasão de uma área no Jardim Olímpico, localizado no Conjunto João Turquino (zona oeste), para uma outra invasão, a do Jardim Santa Fé (zona leste). ‘‘Eles ameaçam, espancam, aprontam uma barbaridade’’, denuncia José Ricardo. Ele assegura que a Federação que preside combate a presença do especulador nos terrenos ocupados. ‘‘Defendemos o loteamento popular’’, sugere.
Hoje, às nove horas, os integrantes da Federação reúnem-se com o diretor-presidente da Cohab, Wilson Mandeli, para tentar encontrar uma solução para por fim à comercialização de lotes e barracos em assentamentos e áreas invadidas em Londrina. ‘‘É inadmissível esse comércio irregular de lotes’’, mandou dizer, ontem, por intermédio de sua assessoria de imprensa, Wilson Mandeli. ‘‘Estamos dispostos a tomar medidas efetivas para conter de vez este problema’’.
‘‘Somos os maiores interessados em encontrar as soluções, pois favelado é uma pessoa séria, trabalhadora’’, acrescenta o presidente da Federação. Há seis anos, sem ter para onde ir, José Ricardo comprou uma área na favela Vila Rica, posteriormente batizada de Jardim Leste-Oeste (zona oeste), e para lá mudou-se com a família e os três filhos, onde estão até hoje.
‘‘Paguei 280 cruzeiros por um terreno de 120 metros’’, lembra. Em 197 lotes do Jardim Leste-Oeste moram 210 famílias. O assentamento conta com luz elétrica, água encanada e asfalto. Nem a falta de dinheiro e de conforto em casa foram obstáculos à decisão de José Ricardo e da esposa Maria José, uma aposentada por invalidez, de adotar uma criança. Isso foi há dois anos quando os dois resolveram criar uma menina que havia sido abandonada pela mãe, lá mesmo no assentamento. A criança tinha três meses e apresentava um quadro de profunda desnutrição, pesando pouco mais de um quilo. Hoje ela está com 9 quilos.

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