Fé, música e causas sociais
Érika Pelegrino
De Londrina
A ala conservadora da Igreja Católica não vê com bons olhos. Parte dos fiéis considera estrelismo. Outra parte adere emocionada, enquanto a mídia se ocupa em fazer a promoção. Por outro lado, alguns intelectuais tecem críticas severas, ao mesmo tempo em que os jovens adoram!
Desde que o padre Marcelo Rossi surgiu nos veículos de comunicação cantando a palavra de Deus, criou-se uma polêmica em torno da modernização das missas e da imagem do sacerdote, ao mesmo tempo em que cresce o número de padres cantores.
Em Londrina, o padre Roque José Roque Neto , que se diz avesso a estrelismos, já lançou um CD e com seu violão lota paróquias em suas celebrações. Mas alerta que a música é apenas um atrativo para transmitir a mensagem de Deus e fazer com que as pessoas se comprometam com a ação comunitária. A música é um elo entre oração e ação. A Bíblia já diz que a fé sem ação é morta.
Comprometido com a ação comunitária e voltado para um trabalho social em sua comunidade, padre Roque lança uma preocupação quando se fala nos grandes shows promovidos pelo padre Marcelo, por exemplo. Junta-se até 160 mil pessoas no Maracanã (estádio do São Paulo Futebol Clube), mas e depois? O que sobra para as pequenas comunidades?
A preocupação de padre Roque é de se criar uma religião de muito sentimentalismo, sem um grupo de ação e de oração na comunidade. Jesus propôs oração e trabalho, afirma. Segundo ele, estes grandes shows acabam servindo apenas de anestésico para problemas e não ajudam a pessoa a se libertar, transformando os momentos de louvor em oba oba.
Mas então qual a importância da música nas celebrações religiosas? Padre Roque é simples: A música toca a alma das pessoas. Quando Jesus nasceu os anjos cantaram. Acredito que a música aproxima as pessoas de Deus, afirma. E é acreditando na divindade da música que ele faz suas apresentações pela região, mas sempre com uma ressalva: Nunca falo em show, mas em Momentos de Espiritualidade e Louvor.
Estas apresentações têm um objetivo concreto para padre Roque: Procuro despertar nas pessoas o desejo em assumir o compromisso de batizado, que é o de imitar a vida de Jesus que sempre foi voltada para o trabalho e a oração.
Novamente ele ressalta que não basta o louvor e a oração, mas é preciso trabalhar em função do próximo. E é com esta filosofia que padre Roque atua em sua paróquia Santa Rita de Cássia, no Jardim Califórnia (zona leste de Londrina). Hoje vivemos um período de muita crise, o que exige um trabalho mais concreto do sacerdote junto à sua comunidade, afirma.
Desde o saco de cimento que falta para a construção de uma casa, o atendimento médico necessário para alguém da comunidade, o casal que quer se separar, o jovem que usa drogas e até o abraço na hora certa fazem parte da ação a que padre Roque tanto se refere.
O beijo e o abraço funcionam como parte do resgate da afetividade, que ele considera um dos grandes problemas vividos hoje pelo ser humano. Agravados pela crise econômica, o desemprego, acrescenta. Segundo o padre, as pessoas estão muito suscetíveis aos apelos mundanos, porque o lado afetivo está muito desestruturado.
Ele relaciona a iniciação sexual precoce do jovem, por exemplo, à falta de afeto dentro das famílias. O jovem vai buscar o afeto fora de casa. Muitos dos adolescentes que hoje fazem parte do grupo de jovem da paróquia vieram em busca daquilo que não encontram em suas famílias, complementa.
Através das confissões e acompanhamento espiritual, visitas às casas dos paroquianos, padre Roque busca resgatar os valores básicos da família e do cidadão. Neste trabalho ele conta que já viu jovem chegar até ele e entregar um punhado de maconha dizendo: Padre faz um mês que eu não fumo. Ou três irmãos de uma mesma família largarem as drogas.
Isto porque o trabalho é feito em torno da história da pessoa, daquilo que a machuca, para ajudá-la a se libertar, complementa. E a música, de acordo com padre Roque, é uma ótima forma de atrair o jovem para as missas e envolvê-lo nas atividades das pastorais.
O tema para as músicas padre Roque encontra nestas experiências com o ser humano e suas misérias. A noite, em momento de oração, padre Roque pega o violão e começa a compor. Engana-se quem pensa que seu ideal é gravar mais e mais CDs ou lotar a agenda de shows.
Seu maior desejo é trabalhar como missionário em algum país do Primeiro Mundo, resgatando jovens. Mas porque não ser missionário em um país paupérrimo, como é de praxe entre os missionários? Simples: nos países ricos os jovens têm de tudo materialmente, mas falta espiritualidade.
PERFIL
Nome: José Roque Neto (Padre Roque)
Idade: 39 anos
Compromisso: com os problemas de sua comunidade
Sobre a música na missa: um elo entre oração e ação
Desejo: ser missionário em um país de Primeiro Mundo, resgatando jovens





