Telma Elorza
Quarta-feira, dia 1º de julho de 1999, pon tualmente 15h30. Cerca de 300 pares de olhos obser vam atenta mente a figura de uma adoles cente ajoelhada em frente a uma gruta artificial, construída de forma tosca no pátio de uma casa simples em um conjunto habitacional de Londrina. A jovem, gordinha e morena, não tem nada de tão especial que a distinga de outras tantas adolescentes que se vê em qualquer cidade brasileira. A não ser pela mantilha branca que traz sobre os longos cabelos cacheados, veste-se - camiseta e saia - e maquia-se como qualquer outra menina de sua idade.
Mesmo assim ela atrai os olhares como se fosse um ímã. Enquanto permanece ali, tranquila e alheia ao que se passa ao redor, encarando um ponto qualquer na gruta, ninguém parece respirar. Todos se concentram em suas expressões. Se ela sorri, um sorriso coletivo se amplia na pequena multidão. Se meneia a cabeça afirmativamente, muitos também o fazem. Se, ao contrário, fica séria e triste, a apreensão toma conta de todos.
Patrícia Andrade, a garota, pode não ter nada de especial em sua aparência. Mas indiscutivelmente tem o poder de parar - mesmo que por um momento - a respiração das pessoas que vão até sua casa, no Jardim Santa Madalena (zona oeste), todos os dias 1º, 5, 7 e 15 de cada mês.
Nestas datas, os quase cinco minutos que fica em transe - supostamente conversando com uma Santa - a transformam em uma pessoa única, alguém para amar e escutar, alguém para seguir. Mesmo que suas palavras desafiem tudo o que o bom senso e os médicos dizem para não fazer, como encarar diretamente o sol. Mesmo que suas palavras tragam a mesma mensagem simples que outros tantos pregam ao redor do mundo: ‘‘É preciso amar a Deus, ao próximo, e rezar, rezar muito pela salvação’’.
Há quase três anos Patrícia vem cativando as centenas de pessoas que vão até sua casa em busca de fé e esperança. Na última quarta-feira, um dia comum de trabalho, o número de pessoas presentes era insignificante comparado à multidão que comparece quando as datas marcadas caem nos finais de semana. Nestes dias, o espaço pequeno da casa fica ainda mais acanhado. O povo se espalha pelas ruas e o sistema de som instalado é insuficiente para que todos possam ouvir claramente a mensagem. Mesmo assim, ninguém reclama. Muitos vêm de longe para tentar vê-la e rezar, pedindo graças.
No pequeno pátio, a emoção e a fé falam mais alto porém que qualquer desconforto. O respeito com que a multidão encara as declarações de Patrícia, o silêncio que guarda durante seu transe, o fervor com que acompanha as orações puxadas pela equipe de voluntários só são justificáveis pela crença comum e absoluta de que ali ocorre um milagre. Um milagre que se repete em dias marcados. (segue nas páginas 2 e 3)Patrícia Andrade é o centro das atenções de milhares de pessoas; romeiros recorrem a ela para ouvir mensagens de Santa
Milton DóriaEm transePatrícia Andrade, a adolescente de 16 anos, durante o rápido período em que recebe mensagens: reação no público a cada mudança de expressão do seu rosto

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