FÉ EM TRANSFORMAÇÃO O Brasil deixará de ser católico?
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de setembro de 2011
Carolina Avansini <br>Reportagem Local 
O Brasil - maior país católico do mundo - caminha em direção à diversidade religiosa e, por conta da velocidade deste fenômeno, já há quem diga que ele pode perder este posto nos próximos 20 anos. A análise faz parte da pesquisa ''Novo Mapa das Religiões'', divulgada pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV). De acordo com o estudo, a população católica brasileira diminui progressivamente desde a década de 80, dando lugar ao crescimento de religiões evangélicas e práticas alternativas não ligadas ao cristianismo. Apesar da democratização das crenças, adeptos de denominações não cristãs ouvidos pela FOLHA ainda sofrem preconceito.
Conforme o levantamento, em 2000 os católicos representavam 73,89% dos brasileiros, caindo para 68,43% em 2009. Nos primeiros registros censitários, de 1872, o catolicismo atingia 99,72% da população livre, reduzindo-se para 89% em 1980 e 83,3% em 1991.
''É um ritmo forte de transformação. As mudanças que aconteceram em cem anos agora estão acontecendo em dez. Se continuar essa perda de um ponto de porcentagem de católicos por ano, em vinte anos teríamos menos de metade da população'', afirma o coordenador da pesquisa, Marcelo Neri.
Os evangélicos, incluindo os ramos tradicionais e pentecostais, seguem - ao contrário - trajetória de crescimento, passando de 16,2% em 2000 para 17,9% em 2003, chegando a 20,2% em 2009. Os ''sem religião'' eram 5,1% em 1991, subiram para 7,4% em 2000 e em 2009 representavam 6,72% da população. Conforme análise do pesquisador, também houve diversificação das crenças alternativas, que cresceram 2,6% em 2000 para 4,62% em 2009.
Os especialistas do Laboratório de Estudos de Religiões e Religiosidades Fábio Lanza, doutor em Ciências Sociais e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL), e Cláudia Neves da Silva, doutora em História e professora do Departamento de Serviço Social da UEL, ressaltam que a pesquisa compara realidades diferentes. ''Em 1872, o regime político era de padroado régio. Estado e Igreja constituiam entidade una e o catolicismo era a religião oficial'', afirmam, acrescentando que, na época, os cultos afro eram considerados ilegais e sofriam perseguição.
Em 2009, ao contrário, o cenário é de democratização religiosa, apesar das restrições da maioria da população a algumas denominações não cristãs. ''Legalmente, as pessoas podem mudar de credo e há garantia de direito ao culto na Constituição'', analisam. Esse contexto, segundo eles, geraria uma ''concorrência'' entre as crenças, oferecendo opções diferentes àqueles que não se identificam com os dogmas do catolicismo. ''Observamos que as pessoas transitam entre as denominações, principalmente cristãs. Podemos dizer que a realidade religiosa brasileira está em trânsito.''
Para os professores, os dogmas imutáveis da religião católica acabam incentivando a busca por outras práticas. Proibição de métodos contraceptivos artificiais, baixa tolerância aos divorciados e negação da homossexualidade são alguns exemplos. ''Esses dogmas acabam sendo excludentes'', dizem.
Sobre o estabelecimento de um cenário de maior diversidade religiosa no País, eles defendem que o maior número de denominações incentiva a tolerância, mas ao mesmo tempo provoca a ''demonização'' de algumas práticas. ''É uma questão de construção das identidades culturais. Para reforçar a própria identidade religiosa em um contexto de pluralidade, as outras religiões são rejeitadas, gerando a intolerância.''


