FÉ E AVENTURA - Cavaleiros em procissão por Santa Rita
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segunda-feira, 23 de maio de 2005
Fernando Rocha Faro<br> Reportagem Local 
Barbosa Ferraz - Uma combinação entre fé e aventura. Este é o espírito da 8 Romaria dos Cavaleiros e Pedestres em louvor a Santa Rita de Cássia. Todos os anos, em 22 de maio, moradores de Barbosa Ferraz (74 km a leste de Campo Mourão) e cidades da região percorrem um roteiro de 76 quilômetros entre santuários dedicados à santa das causas impossíveis, em Barbosa e Lunardelli. Como sempre acontece, o ponto alto da pergrinação foi a travessia do Rio Corumbataí, feita no lombo dos animais na tarde de domingo.
O percurso é acompanhado por devotos de todas as idades. Casos de fiéis que garantem ter sido atendidos por Santa Rita são comuns. A peregrinação é feita por estradas rurais da região e o encerramento é marcado por uma missa no Santuário de Barbosa Ferraz, no início da noite de domingo. As paradas para descanso são reservadas também para momentos de reflexão e oração, roda de viola, causos e descontração. A imagem, feita em madeira por um artesão local, também é carregada no lombo de um animal.
A travessia do Corumbataí é o momento de maior alegria. Aos gritos de ''Viva Santa Rita'', os cavaleiros vencem os cerca de 40 metros do rio, que como estava baixo devido às chuvas escassas, tem no trecho por volta de 1,20 metro de profundidade. Na última parada antes da chegada ao Santuário de Barbosa Ferraz, o cansaço e a alegria se confundem entre os romeiros. Peões simulam um rodeio, cravando as esporas no lombo dos animais. Na chegada, os pedestres e cavalheiros são recebidos por mais fiéis, da região e de outras cidades do Estado. Uma missão de coroação a Santa Rita de Cássia e uma queima de fogos marcam o encerramento do evento, marcado pela fé da comunidade de Barbosa Ferraz e outros devotos da santa das causas impossíveis.
As dificuldades para percorrer as estradas rurais não impedem a participação dos devotos. Um exemplo é o aposentado Heleno Clemente de Souza, 69 anos, o mais velho entre os cavaleiros. ''Tenho artrose no joelho. Se não fosse pela fé em Santa Rita, eu não estaria aqui com vocês. Pelo menos, não participaria da romaria'', acredita. No lombo do cavalo, ele se mistura a dezenas de peões de todas as idades. Em comum, a fé em Santa Rita.
Dono de ''umas vaquinhas de leite'', Vicente Adriano Calazans, 32, participa de sua sexta romaria com a família quase completa. Com os filhos Gabriele, 11, Adriana, 7, e Gustavo, 4, ele ignora o cansaço durante a participação no evento religioso. ''As crianças também não cansam porque pra eles é um prazer. Até durante as paradas, eles pedem para eu deixar cavalgarem'', revela. Devoto fervoroso, Calazans conta que passou a adorar Santa Rita com mais entusiasmo após a morte da mãe. ''Antes de morrer ela pediu que eu seguisse mais a Igreja. Aquele pedido me tocou e percebi que o que eu precisava na minha vida era religião'', destaca.
Para repor as energias nas paradas, comida caseira preparada por devotos e devotas. O cardápio agrada aos participantes e as quantidades impressionam. Desde a partida na manhã de sábado em Barbosa Ferraz, incluindo a passagem por Lunardelli, a pernoite em fazenda no município de São João do Ivaí e o retorno ao santuário de Barbosa, os fiéis consomem quilos de alimentos. De acordo com Vicente Vedevoto, 58, membro da equipe de apoio, os romeiros consomem 100 quilos de arroz, 60 de feijão, 90 de frango, 50 de legumes e 80 de carne de boi. ''Praparamos a comida na fazenda e levamos nos locais das paradas da romaria'', explica Vedevoto.
As refeições são preparadas por sete mulheres e três homens. Moradora da Zona Rural de Barbosa Ferraz, Maria Belinato Gambaro, 57, faz parte do grupo de cozinheiros desde a primeira edição da romaria. ''Estou acostumada a trabalhar nas festas da Igreja. Na romaria a gente quase não dorme. Às 4 horas da manhã já tem de estar de pé para preparar o almoço'', afirma.
A fila da comida prioriza os idosos, como Heleno Clemente de Souza, e as mulheres. Elas também participam. A maioria percorre o trecho a pé, mas também é possível encontrar amazonas na tropa de devotos de Santa Rita. Aos 16 anos, a estudante Gracieli Sangi Salene fez o trajeto de ida caminhando e voltou a cavalo. Com uma irmã doente, que chegou até perder um filho, ela fez promessa de sempre participar da romaria. ''Vale a pena participar pela promessa que eu fiz'', garante.


