Fazer o bem, que mal tem?
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quarta-feira, 03 de outubro de 2018
Pedro Marconi<br>Reportagem Local 
O corpo franzino, as mãos com as marcas de quem muito trabalhou nesta vida e a avançada idade não são empecilhos para José Guilhen Gomes, 92, cuidar das árvores, flores e plantas que vê pelas vias públicas da cidade. Não importa se é em frente ao prédio onde mora, no centro de Londrina, ou em um bairro distante, ele está sempre disposto a dar sua contribuição. Gomes, assim como muitas pessoas que vivem no município, não fica parado esperado melhorias, mas coloca a "mão na massa" em busca de um ambiente melhor para todos.
"Onde vejo planta seca ou com falta de cuidado procuro fazer algo para melhorar a situação dela. Podo o que consigo, arranco o mato que está começando a nascer com a mão mesmo. A planta, para mim, é uma vida e o que puder fazer para ver bem uma 'vida', eu farei", destaca. "Gosto de cuidar da cidade e fazer tudo que posso para deixa o nosso redor bom,", acrescenta com um sorriso no rosto.
Natural de São Manuel, no interior de São Paulo, Gomes mudou-se para Londrina quando criança, pouco tempo depois da capital do Café começar a ser desbravada. É um do pioneiros dessa terra vermelha. Perdeu o pai quando tinha 12 anos e foi na incumbência de responsável pela família que nasceu o amor por cuidar do bem comum. "Nasci no sítio e toda a vida estive cuidando de plantas. Colhia verdura na Vila Casoni e ia vender na cidade", relembra ele, que diz ser o primeiro verdureiro do município e quem fez a primeira horta.
Morando no mesmo prédio há mais de 35 anos, Gomes também já foi marceneiro. No apartamento mostra com orgulho os móveis que ele mesmo fabricou. Uma mesa, cristaleira, guarda-roupa e escrivaninhas. "Comprávamos tora e tínhamos que deixar cerca de um ano na sombra para podermos fazer os móveis, porque não acessávamos máquinas. Estes móveis têm mais de 50 anos", explica com sua fala calma.

PREOCUPAÇÃO
Segundo José Gomes, aqueles que costumam passar pelo Colégio Estadual Hugo Simas rotineiramente o conhecem pelo tanto que trabalha pelas árvores do quarteirão. "Tiraram um toco esses dias e é uma terra boa. Fui lá e limpei toda a sujeira que tinha ficado", conta. O aposentado acredita que ainda falta uma preocupação maior por parte da população e do poder público em relação a Londrina. "Até temos plantas e árvores, porém não tem quem cuida e mantenha", constata. Entre os locais favoritos para ocupar-se estão o Bosque, a Praça da Bandeira e o Calçadão. Também mantém uma horta na zona sul, onde vai três vezes por semana. Quando colhe, distribui para amigos e vizinhos.
Pai de três filhos, avô de dez netos e bisavô de outros oito, o senhor de 92 anos chega a deixar a família aflita quando sai para cuidar da cidade. "Ele não enxerga muito bem e quando demora um pouco mais que o normal já fico preocupada. Ele não para nenhum momento. É ficar um pouco parado que já vai andar. Quando acha uma planta morrendo fica se lamentando", afirma a esposa, Olga Meira Gomes. Eles são casados há 61 anos.
Sem necessidade de tomar medicamento de uso contínuo ou saber o que são dores ou doença, o jardineiro de Londrina consegue no serviço à comunidade o melhor remédio para a longevidade. "Só não consigo subir em escada, porque o corpo não é o mesmo. Quando saio de casa levo um documento. Tomo alguns cuidados", elenca.

Gelson Alcântara trabalhou sozinho durante os fins de semana de 2017 e agora divide com a vizinhança a nova cara do Jardim Morumbi: 'Toda noite passeio com o cachorro e recolho o lixo que vou encontrando'
AMOR PELO BAIRRO
Quem transita pelo jardim Morumbi, na zona leste de Londrina, e encontra espaços bem preservados, com um colorido diferente por conta das pinturas e flores, não imagina que há um ano a realidade era bem diferente. A transformação teve início em março de 2017 pela iniciativa do comerciante Gelson Alcântara. Cansado do matagal que tomava conta do centro comunitário do bairro e da praça em frente da Associação de Moradores, decidiu organizar um mutirão de limpeza.
Antes, reuniu-se com donos de comércios locais, lideranças e vizinhos. No dia combinado estava lá. "A ideia era mobilizar a comunidade para todo o último sábado do mês fazer mutirão. Pedi à CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização) um caminhão para depositarmos o lixo, só que ao invés de aparecer todos, não veio ninguém. Só eu e uma vizinha fizemos esse mutirão. Trabalhei o dia todo, mas consegui melhorar um pouco nesse dia", recorda.
A pouca adesão dos moradores não desanimou Alcântara, que sozinho deu continuidade à ideia. "A praça era cheia de mato, o meio-fio encoberto, bancos quebrados, não dava para andar na calçada e aquilo me incomodava. Estamos em um bairro privilegiado, pois mesmo pequeno temos praça e centro comunitário. Resolvi me dedicar sozinho, trabalhando sábado, domingo e feriado durante todo 2017 para ver se a melhoria saía", aponta.
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DEDICAÇÃO
Mesmo sem ajuda, a recuperação das estruturas saiu. "Pintei o meio-fio, o muro da escola do bairro, peguei pneus com amigos borracheiros e cortei para plantar flores neles, depois espalhei esses pneus pela praça e centro comunitário. Limpei a viela que era intransitável e pintei o muro dela, troquei as lixeiras da praça", diz. Também espalhou pneus com flores em frente às casas de alguns vizinhos. Com uma rotina de ações, busca manter o que já foi realizado. "Toda noite saio para passear com o cachorro e vou recolhendo o lixo que vou encontrando. Além disso, cuido com mais ênfase aos domingos e feriados."
Segundo Alcântara, a falta de conscientização dos demais moradores em zelar pelos espaços ainda é o grande desafio que encontra. "As pessoas só sabem reclamar, mas ninguém tem coragem de ir e resolver o problema. Se não cuidarmos do que é nosso, quem vai cuidar", questiona. "Quem mora em um lugar mais bonito com toda a certeza também é mais feliz. Minha parte como cidadão eu faço", completa ele, que mora no bairro há cinco anos e tem o apoio da família para as atividades que desenvolve.
Agora, o comerciante trabalha para difundir o projeto "Eu amo jardim Morumbi". O desejo é buscar o apoio de empresários para confeccionar camisetas com a frase para que sejam comercializadas. O valor será revertido para mais benfeitorias. "Meu sonho é ver o povo daqui 'abraçando' o bairro", espera. Ele ainda deseja transformar a viela do bairro em uma galeria de arte, enquanto cobra da prefeitura a troca da calçada, atualmente deteriorada.


