Fazendeiros tentam confundir sem-terra
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terça-feira, 09 de fevereiro de 1999
Marccio W. Varella 
Os donos de terras da região Noroeste do Paraná estão retirando as placas da frente de suas fazendas para confundir os trabalhadores sem-terra e assim evitar as invasões. A estratégia foi revelada à Folha pelo comandante do 2º Pelotão de Polícia Militar de Nova Londrina (100 km ao norte de Paranavaí), tenente Gilberto Baroncelli.
A estratégia foi usada na última semana. Na quinta-feira, cerca de 80 famílias de sem-terra invadiram a Fazenda Kondo, em Nova Londrina. Como não havia placa na frente da fazenda, os sem-terra se confundiram e invadiram a propriedade, que tem apenas 50 alqueires e certificado de produtividade.
Os proprietários da Kondo já haviam conseguido a ordem de reintegração de posse na Justiça. O documento foi mostrado pelo tenente Baroncelli aos sem-terra na sexta-feira e eles decidiram deixar o local.
Orientados por mapas, os sem-terra se dirigiram à Fazenda Novo Horizonte, do mesmo proprietário (da família Kondo), de 158 alqueires e distante 15 quilômetros da primeira, na divisa com o município de Marilena. As mesmas 80 famílias invadiram a Novo Horizonte na manhã de domingo. Esta fazenda, já vistoriada pelo Incra, foi considerada improdutiva no dia 24 de novembro de 98, segundo documento obtido pela PM. A família Kondo pediu ao Incra uma nova avaliação da fazenda, o que ainda não foi feito.
No domingo, após a invasão, o comando do 8º Batalhão da PM sediado em Paranavaí foi avisado pelo coordenador da Pastoral da Terra de Curitiba, Darci Frigo, de que o proprietário da Kondo havia ameaçado levar pistoleiros para fazer a desocupação à força dos sem-terra. Imediatamente, o 2º Pelotão de Nova Londrina enviou quatro viaturas e dez soldados para o local.
O tenente Baroncelli negociou pessoalmente a retirada dos sem-terra e do gado, o que foi feito pacificamente. A PM permaneceu no local até o final da noite, mas teve que retornar à Nova Londrina. Outras 120 famílias de sem-terra chegaram domingo e ontem a Novo Horizonte, para dar apoio moral e segurança aos que já estavam lá, disse uma fonte do MST de Querência do Norte (a 113 quilômetros de Paranavaí).
Os pistoleiros ficam passeando na frente da fazenda, armados, ameaçando a gente. Mas quando a PM chega eles desaparecem. Por isso é que o clima é tenso, ninguém sabe o que pode acontecer, disse a fonte do MST.
A PM teve que abandonar o local por falta de combustível em suas viaturas. Temos apenas uma viatura fazendo rondas esporádicas no local, da mesma forma que fazemos nas outras fazendas da região invadidas pelos sem-terra. O Estado não está pagando cota suficiente de combustível para a gente permanecer nos locais de possíveis conflitos, disse o tenente Baroncelli. O 2º Pelotão tem 28 soldados, quatro viaturas e uma motocicleta, e é responsável por quatro municípios: Nova Londrina, Marilena, Itaúna e Diamante. Existem invasões promovidas pelo MST nas fazendas Prisanto e Novo Horizonte, de Nova Londrina, e Boa Sorte e Santo Ângelo, em Marilena.
O comandante do 8º Batalhão de PM de Paranavaí major José Rigoni Filho confirmou à Folha que a corporação tem problemas de combustível para suas viaturas. Às vezes o Estado atrasa um mês, mas depois os postos que nos abastecem recebem o dinheiro. O problema é quando gastamos acima da cota, o que é normal na região por causa dos sem-terra. O 8º Batalhão tem mais de 100 viaturas e 500 soldados, distribuídos pela região, informou o major.
O coordenador da Pastoral da Terra disse à Folha ontem em Curitiba que o MST não está divulgando algumas invasões que tem promovido no Paraná para evitar reações violentas dos proprietários. É o caso de uma fazenda na Lapa (município próximo a Curitiba), invadida ontem, anunciou Darci Frigo.


