O pecuarista João Carraro, que teve duas propriedades invadidas no final do ano passado na região Noroeste, adotou uma estratégia diferente para enfrentar o que ele considera uma ‘‘apatia’’ do governo diante da falta de respeito pela lei.
Ao invés de esperar pela polícia ou por outro caminho qualquer, Carraro negociou direto com os sem-terra a retirada do gado das duas áreas, sempre abrindo mão de alguns animais e ‘‘mais algumas coisas’’, conforme ele, exigidas pelos invasores. ‘‘Na última fazenda nem apresentei queixa contra o roubo de insumos ou a destruição de benfeitorias. A polícia não toma providências porque o governo não quer’’, acusa.
Ele garante que não quer mais ter as duas fazendas de volta - a São Pedro, de 404 alqueires, em Santa Mônica (93 km de Paranavaí) e a Sumatra, com 322 alqueires, no município de Planaltina do Paraná (50 km de Paranavaí). A São Pedro foi a primeira a ser invadida, por cerca de 100 famílias em agosto do ano passado.
Carraro conseguiu mandato de reintegração de posse, mas não as terras de volta. Para tirar os 1.100 animais da propriedade teve que emprestar o trator e pagar parte do óleo diesel para os sem-terra, além de ‘‘doar’’ 15 bois gordos. ‘‘Mas eles já haviam se apossado de outros animais’’, diz.
Quando teve a fazenda Sumatra invadida, Carraro diz que já estava ‘‘escolado’’. Pediu a reintegração de posse e começou a negociar direto com os sem-terra. Inicialmente os invasores queriam 80 animais e 30 dias de trator. ‘‘Não concordei e o comando da Polícia Militar de Paranavaí pediu para mim dar um tempo’’, lembra.
Na semana seguinte, sem esperar pela polícia, ele começou a ‘‘negociar’’ com um dos líderes do acampamento, identificado apenas como ‘‘Negão’’. Carraro teve que ‘‘deixar’’ 13 bois gordos, três vacas de leite, ceder o trator para os sem-terra por 60 dias e pagar mil litros de óleo diesel. Até que o Incra decida se compra ou não a propriedade, ele vai deixar outras sete vacas em produção. ‘‘Que com certeza já perdi’’, afirma.
A Fazenda Sumatra, que fica a cerca de 3 quilômetros da cidade, produziu mil cabeças de gado no ano passado, mas é imprópria para lavouras. ‘‘Será mais uma propriedade improdutiva’’ afirma. ‘‘Um sem-terra me disse que se a área não der nada eles vão plantar quiabo nos 322 alqueires’’, revela. Ele lembra que na Fazenda São Pedro, onde teve que ceder 600 horas de trator, os sem-terra plantaram 40 alqueires de milho e mandioca, sem nenhuma adubação ou preparo adequado do solo. A lavoura ficou tomada pelo mato e a perda foi total. ‘‘Nenhum sem-terra, que se diz trabalhador, teve coragem de carpir a lavoura’’, lamenta.
Carraro diz ainda que normalmente os sem-terra trabalham apenas a área em frente à estrada, para mostrar que estão cultivando, enquanto o fundo da fazenda é sempre arrendado. Mas o que ele considera mais grave são as denuncias de moradores da região, de que políticos, aposentados e até funcionários públicos estão com barracas no acampamento da Fazenda Sumatra. Entre os ‘‘reconhecidos’’, estão o vice-prefeito de Amaporã, Ari Moraes Cruz, dois vereadores da mesma cidade, de sobrenome Vanucci, que têm um sítio de 38 alqueires, e até um juiz de paz e um policial aposentado.
Segundo Carraro, eles pagam para outras pessoas ficarem no acampamento durante o dia e de noite dormem nas barracas. Carraro diz ainda que alguns ‘‘sem-terra’’ chegam de camionetas e carros novos no acampamento para passar a noite. ‘‘A invasão de propriedades, mesmo improdutivas na opinião do Incra, está acabando com a agricultura de algumas regiões do Paranᒒ, garante.
O preço da terra na região de arenito, onde predomina a pastagem, caiu de R$ 5 mil o alqueire há cerca de oito anos para R$ 2 mil hoje, apesar de não existirem compradores nem por preço mais baixo.
Segundo o produtor, a produtividade agrícola do Norte e Noroeste do Paraná sofreu uma redução de 50% nos últimos anos. ‘‘Ninguém está investindo em áreas de risco e, como já falei, a região de conflitos está se ampliando sem que ninguém tome uma providência’’, alerta. ‘‘Nenhum estado deixou a situação chegar a esse ponto. No Paraná terra invadida é terra perdida’’, diz.

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