Milton DóriaChutes e golpesNey Mário Minardi e o local da cabeça mais afetado durante o conflito com os sem-terra: crânio pressionadoNey Mário Minardi, 65 anos, o fazendeiro que ganhou as manchetes dos jornais do Brasil e do exterior como vítima da violência no campo ao ser fotografado amarrado e com o rosto ensanguentado, disse no início da semana à Folha que não teme um novo confronto com os sem-terra e, se necessário, vai defender armado a sua propriedade e a de seus amigos.
- Eu já dei muita entrevista, já falei que, se um dia eu precisar usar uma arma contra eles (os sem-terra), não põe crianças na frente, porque os primeiros que chegarem nós mata - resumiu o fazendeiro.
Por volta das 12h30 do dia 6, Minardi, o também fazendeiro Aroldo Schweitzer e cinco seguranças da Fazenda Cordilheira, em Jundiaí do Sul (64 quilômetros ao sul de Jacarezinho) sofreram violências, foram tomados como reféns e mantidos amarrados cerca de quatro horas por sem-terra que haviam invadido a propriedade, pertencente à família Granemann.
Dono de duas áreas no vizinho município de Conselheiro Mayrink - uma de 650 alqueires e outra de 210 alqueires, onde mantém cerca de 1.400 cabeças de gado -, casado com Maria Olímpia Leonardi e pai de dois filhos, Minardi foi envolvido no conflito no momento em que decidiu atender ao pedido de ajuda de familiares dos proprietários da fazenda.
- Pediram para mim acompanhar alguém da família para ver o que estava acontecendo na fazenda. Fomos na manhã de sábado (dia 6) para Ribeirão do Pinhal procurar a promotora (Fábia Teixeira Fritegotto) e inclusive seguranças. A finalidade era ter seguranças para cercar os sem-terra, para eles não pegarem bois.
Segundo ele, os cinco ou seis seguranças disseram aos fazendeiros que não tinham condições de enfrentar a situação e um deles, apresentando-se como chefe, avisou que buscaria reforços em Cornélio Procópio. Os novos contratados, conforme combinaram, se encontrariam por volta das 14 horas no lote da Fazenda Cordilheira pertencente a Aroldo Schweitzer. A propriedade, de 430 alqueires e localizada às margens da PR-218, no trecho entre Jundiaí do Sul e Guapirama, foi loteada entre os herdeiros.
- Eu fui para lá antes, na propriedade do Aroldo (Schweitzer). Parte dos seguranças estava na moradia do caseiro. Eles (os sem-terra) é que vieram onde a gente estava. Não fomos nós que fomos até eles, como andaram dizendo.
Minardi relatou que quatro sem-terra, montados em cavalos da fazenda, entraram no lote de Schweitzer pelos fundos da propriedade. Segundo ele, o pedido feito aos invasores foi de que descessem dos cavalos e retornassem a pé até a área invadida.
- Quando tirei os arreios do segundo cavalo vi um deles, não sei se era o chefe, apontando um 44 (revólver) para a cabeça do Aroldo. Eu estava com os freios (arreios) na mão e disse para não brincar com aquilo (o revólver) senão eu ia estourar a cabeça de algum com os freios.
Minardi não menciona o tiro que atingiu a perna do sem-terra Idair Sebastião Ribeiro, o Odair Macoto, e que teria originado o conflito. Mas disse que o sem-terra começou a gritar. Foi quando desceram da área invadida mulheres, crianças e homens.
- A sorte foi que os seguranças se entregaram. Porque se os seguranças atiram, daí eles matavam nós. Os seguranças saíram de arrasto, saíram da casa apanhando. Se nós estivéssemos armados e dentro da casa, eles não teriam chegado lá.
Do resto Minardi tem poucas lembranças. O fazendeiro disse saber que dois carros foram queimados, os móveis do caseiro foram destruídos e uma pequena casa foi incendiada. Quando já estava amarrado, relatou, alguns sem-terra chegaram a confundi-lo com um pistoleiro, com pelo menos três mortes nas costas.

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