Fazenda tenta reabilitar dependentes de álcool
Entre as cercas que circundam a Fazenda Solidariedade, em Campo Magro, Região Metropolitana de Curitiba, 180 homens, em média, dividem o mesmo drama: superar o alcoolismo. Uma doença que, segundo o interno Luiz Carlos de Oliveira, 29 anos, é incurável, progressiva e fatal. Associado ao vício da bebida, muitos lutam contra as drogas. A instituição é mantida pela Fundação de Assistência Social (FAS) de Curitiba, para reabilitação social de mendigos, principalmente os dependentes de álcool. Mesmo assim, a cidade tem 280 indigentes crônicos em suas ruas. Homens e mulheres que recusam assistência por serem viciados em drogas e álcool e não terem mais nenhum vínculo, como mostrou a Folha ontem.
Comparado a esses 280, Oliveira é um privilegiado. Longe dos filhos, separado da mulher, ele dá graças por estar vivo. Eu sou muito feliz hoje. Não tenho dinheiro, um emprego legal, mas tenho paz, diz. Quando estava nas ruas, vi que ia morrer. Não aguentava mais. Estava muito debilitado fisicamente e ia morrer. Depois de beber por 18 anos e usar drogas, Oliveira foi obrigado a parar.
Em 28 de março do ano passado, ele cruzou o portão da Fazenda Solidariedade. Passou por um processo de desintoxicação, reaprendeu hábitos e disciplinas, como almoçar às 12 horas e escovar os dentes, e participou de grupos de reabilitação social e prevenção contra o vício. Processo pelo qual passam todos os internos da instituição, que tem capacidade para 350 homens. São histórias parecidas, só mudam os personagens, afirma a psicóloga Eluiza Maria Lopes, gerente da Fazenda Solidariedade e responsável também pelo Setor de Reabilitação Social.
Oliveira também aprendeu a trabalhar e, passado mais de um ano, é um dos 16 internos que recebem R$ 80,00 de uma ajuda de custo. Responsável, enquanto interno, pela tapeçaria, ele voltou a falar com a família, reviu os filhos e sonha com um emprego que possa trazê-lo de volta à sociedade. Embora possa sair quando quiser, assim como qualquer outro interno, Oliveira não sai sem o que chama de oportunidade com segurança. Ele afirma que, ao ir das ruas para a Fazenda, não tinha mais virtudes. Agora, afirma, conseguiu resgatar a resposabilidade e não quer voltar ao vício.
Um desejo dificilmente se concretiza na maioria dos casos. Segundo a psicóloga Lúcia Verenka Koltun, coordenadora do Programa de Reabilitação Social, entre 50% e 70% dos internos voltam ao vício ao sair da Fazenda. Eles dizem que é mais fácil encontrar alguém que lhes ofereça ácool que um prato de comida, revela.
Segundo Lúcia, em geral, os internos têm entre 25 e 35 anos, dez deles passados nas ruas. Muitos começaram com os vícios na infância, afirma. Para a psicóloga, dois fatores são fundamentais para que o interno não volte ao vício: a participação em grupo de auto-ajuda e, principalmente, emprego. Trabalho é fundamental. Reforça a auto-estima e permite o sustento, diz.





