Fazenda Refúgio: terra de ninguém
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quarta-feira, 18 de junho de 2008
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
Adquirida em 1991 pela prefeitura para abrigar um conjunto habitacional com mais de seis mil unidades, a Fazenda Refúgio (Zona Sul de Londrina) é objeto de uma discussão jurídica que se arrasta por 16 anos. Por não se prestar à finalidade pela qual foi adquirida, a propriedade foi jogada na vala comum do esquecimento e o resultado foi o mais óbvio e previsível possível: virou terreno fértil para toda sorte de desmandos e danos ambientais.
Oficialmente, a posse dos cerca de 150 alqueires é da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld). Mas, desde a compra pelo Município, quase nada foi feito para proteger e fiscalizar a área e recuperar partes degradadas. Pelo contrário, a própria Cohab foi multada seis vezes pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP) por permitir a retirada moledo, terra e grama, por se omitir na permissão de rallys em área de preservação permanente e por impedir a regeneração da mata nativa e supressão da vegetação. Além disso, o Município usava um trecho da fazenda como depósito de galhos até poucos anos atrás.
Informalmente, a função de cuidar da fazenda cabe a uma solitária mulher que mora na sede há mais de uma década, com permissão da Cohab. A lavradora Jucélia Dias tinha a companhia de quatro filhos mas só ela resistiu ao isolamento. Sozinha, acaba colocando a própria vida em risco porque criminosos usam a região para se esconder ou então depenar veículos. ''Só não fui embora porque assumi minha palavra. O que eu quero não é dinheiro. É só um pouco mais de atenção'', suplica.
Tendo somente os cães como companheiros, a trabalhadora lamenta não conseguir impedir que a área seja explorada clandestinamente por pelo menos cinco criadores de gado que manteriam cerca de 300 cabeças em área de preservação permanente. Além de degradarem o ambiente, os animais avançam sobre a única fonte de renda da moradora: a lavoura de vassoura. ''Tive um prejuízo de quase R$ 15 mil só na última plantação'', calcula. Jucélia também denuncia que pessoas estariam extraindo madeira da propriedade.
Problemas que foram confirmados pela ONG Meio Ambiente Equilibrado (MAE), que complementa que invasores urbanos também penetram com facilidade na propriedade. E mais: os resíduos de esgoto que são lançados no Ribeirão Cambé pela Estação de Tratamento da Sanepar (ETE-Sul) que está instalada na propriedade também é preocupante, embora haja controle por parte da empresa.
O advogado e membro da ONG, Carlos Levy, alerta que os problemas se sucedem porque até hoje não houve interesse pela fazenda. ''Como a área está sob disputa jurídica, houve uma certa acomodação e não se investiu nada em fiscalização, proteção e recuperação'', critica o ambientalista.
Em março deste ano, em resposta a um pedido de informação encaminhado pelo vereador Roberto Kanashiro, o então presidente da Cohab, Carlos Eduardo Afonseca, admitiu que ''não havia empresa ou pessoas contratadas para realizar serviços de vigilância no local''. Em contrapartida, informou que a Companhia havia ingressado com ação de reintegração de posse contra um dono de cabeças de gado que usava indevidamente a propriedade.
O atual presidente da Cohab, Rosalmir Moreira, reforça que a demanda judicial interferiu negativamente.''De certa forma, (a discussão) prejudicou sim a fiscalização. A área ficou abandonada, sujeita a ação de vândalos e de outras pessoas que ocuparam com casas e gado'', avalia. Ele aponta, porém, que a Prefeitura está revendo o plano diretor para a região mas antecipa que a fazenda está em uma área de expansão e isso será levado em consideração.


