Os primeiros 13 quilômetros asfaltados da Transbrasiliana entre Ventania e Tibagi passam pela Fazenda Fortaleza, marco histórico da ocupação e cenário de romance, em que a casa grande, apesar das modificações, mantém características originais da construção - por volta de 1790. A fazenda, que pertence a herdeiros de Argemiro Camargo Ribas (residentes em Londrina), é ponto de peregrinação de devotos do Bom Jesus da Cana Verde, uma imagem de 200 anos que se encontra numa capela sempre aberta.
Limitada a 1.300 alqueires ocupados pela agricultura moderna, hoje Fortaleza é uma ''porçãozinha'' do que foi o latifúndio do coronel José Félix da Silva, também mencionado como José Félix do Canto e Silva. E que seria, ainda, José Félix da Silva Passos a quem o Império concedeu a extensão de 1 x 3 léguas ''localizada na paragem chamada Campo dos Bugres'', em 5 de maio de 1788, conforme o Mapa das Sesmarias do Século 18.
Mas, por outras informações, José Félix comprou 21 mil alqueires, constituindo a Fazenda Fortaleza, e só depois requereu a maior sesmaria da região, 65 mil alqueires, dos quais uma parcela ia configurar a Fazenda Monte Alegre, que hoje pertence à Indústria Klabin de Papel.
Fortaleza era ''a mais enfiada nas terras ocupadas pelos selvagens'', os caingangues, que atacavam e eram mortos ao serem perseguidos pela gente de José Félix, que lhes aprisionava mulheres e crianças, anotou o botânico francês August de Saint-Hilaire, hóspede da fazenda por alguns dias em 1820. O nome se devia provavelmente ao muro de taipa que circundava a casa grande, proteção contra os caingangues, finalmente submetidos a uma represália implacável por volta de 1796, após terem matado Brígido Álvares, que deixara Fortaleza rumo a Castro. Com uma flecha em cada olho, a cabeça de Brígido amanheceu espetada num dos portões da fazenda.
A historiadora da Fazenda Monte Alegre, Hellê Velozzo Fernandes, menciona ''correspondência do século 18'' relatando a chacina de um grupo de caingangues pela expedição comandada por Antônio Machado Ribeiro, lugar-tenente de José Félix, que cometeu ''crueldade sem par'', não respeitando mulheres, nem crianças. ''O sangue empapou a relva e correu em filetes para o riozinho próximo.''
O tenente-coronel José Félix também era ''adiantado'' do governo e organizou milícia para conter o contrabando de diamantes e os garimpos não-autorizados, soube Saint-Hilaire. ''Mau, rancoroso e extremamente parcimonioso'', ele maltratava escravos, empregados, a própria filha e a esposa, que pôs sob suspeita de infidelidade. ''Ela postou bandidos assalariados, que o atacaram'' e ele, se defendendo, ''perdeu todos os dedos de uma mão, a outra ficou aleijada e ainda ficou coxo dos golpes recebidos nas pernas''. Onistarda, a esposa, foi condenada. ''À força de solicitações e empenhos'', José Félix conseguiu a ''escritura do perdão'' e passou a mantê-la em cárcere na fazenda.
Mas o isolamento não evitou que alguém o assassinasse, a mando dela. A tragédia é tema do romance ''O Drama da Fazenda Fortaleza'', de David Carneiro. (W.S.)

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