Edson GuittiDedicaçãoNaly varou madrugadas estudando na mesa da cozinha de sua casa. Tempo para o serviço doméstico, trabalho na UEM e horas de aula

A zeladora Naly Viana Garcia, 48 anos, vai quebrar um tabu da sociedade brasileira, aquele que impede a grande maioria das pessoas carentes de conseguir um diploma universitário. No próximo dia 22, às 18 horas, ela vai receber das mãos do reitor da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Luiz Antonio de Souza, seu diploma de Licenciatura Plena em Pedagogia.
Naly é de origem bastante humilde e sempre teve que trabalhar. ‘‘Sou faxineira e faço café há 22 anos’’. Desde 1985, ela trabalha na Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (PEC) da UEM. Naly lembra que um de seus primeiros serviços na universidade foi varrer as escadarias do ginásio Chico Neto, de Maringá, onde seria realizada mais uma cerimônia de diplomação dos formandos.
Edson GuittiRecompensaA zeladora faz café no local de trabalho: gratidão da família
‘‘Eu ficava empolgada quando via aquele pessoal descendo as escadarias para receber o diploma e dizia baixinho para mim: Eles não são mais inteligentes do que eu. Eu vou voltar a estudar’’, recorda. Naly deixou os estudos quando tinha 14 anos de idade, no 3º ano primário. Voltou a estudar aos 39 anos. ‘‘Apesar de todas as barreiras, de todos os preconceitos.’’
Quando seu sonho estiver sendo realizado, no dia da formatura, na arquibancada do Chico Neto estará um marido ‘‘feliz, orgulhoso e completamente apaixonado, certamente com lágrimas correndo pelos olhos’’, antevê Darci Firmino Garcia, 54 anos. Ele estará vestindo um velho e apertado paletó, com uma gravata fina e lisa sobre uma camisa quadriculada. Ao lado dele, os três filhos e os dois netos do casal. No alto das escadarias, os 1.100 formandos da UEM - entre eles, a mulher que não se conformou com seu destino mais provável.
Naly nasceu no dia 21 de novembro de 1948, em Salto Grande, distrito de Ourinhos (SP). Sua família mudou para Astorga (PR) quando ela completou três anos de idade. De lá, foram para Lobato, onde ela conheceu o marido Darci. Casados, foram morar num sítio da família de Darci em Palmital, região de Campo Mourão.
Eles chegaram a Maringá em 1974, quando Darci conseguiu emprego de motorista em uma companhia de gás, onde trabalha até hoje. As filhas Léa e Ledinéia já haviam nascido. Foram morar num ‘‘quartinho apertado’’, como lembra Naly, na Avenida Pedro Taques. ‘‘Como passamos fome. Quantas vezes eu e meu marido fomos dormir de barriga vazia para deixar comida para as crianças’’, relembra ela.
Edson Guitti‘‘Se eles pensam que eu vou parar, estão enganados. Quero fazer mestrado’’
Assim que chegou em Maringá, Naly começou a trabalhar. Passou dois anos limpando o chão da empresa Prosdócimo, mais cinco anos fazendo a mesma coisa no Instituto Brasileiro do Café (IBC) e outros três na fábrica de tecidos Karasawa, sempre ganhando o stalário mínimo.
Em 1985, Naly fez um concurso para zeladora da UEM. ‘‘Só consegui entrar porque eles não exigiam grau de escolaridade na época, bastava ter carteira de trabalho’’. Ela ficou três anos limpando salas de aula e só depois é que foi transferida para a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura. ‘‘Foi quando comecei a conviver com técnicos e professores e senti que poderia, um dia, ter também um diploma. Minha vida precisava mudar. E essa mudança só dependia de mim, da minha vontade, da minha fé e da minha esperança, que eu nunca perdi’’.
Em 1986, a UEM promoveu um curso de educação para adultos. Naly se matriculou e foi conversar com a coordenadora do curso, professora Sônia Rossetto. ‘‘Ela me aconselhou a fazer um curso supletivo, fora da UEM, pois, segundo ela, o pouco que eu sabia ainda era mais do que os outros sabiam’’.
Estimulada, ela concluiu o 1º grau no curso supletivo da escola estadual Vital Brasil. Naly continuou a trabalhar na UEM, das 11h30 às 20 horas, de segunda a sexta-feira. O 2º grau Naly fez no colégio Pólo Júnior, também supletivo. Lá ela ganhou meia-bolsa de estudos do professor Jamil José Peti.
Ela sempre teve vontade de fazer Pedagogia por dois motivos. Primeiro, porque o horário das aulas, de manhã, no campus da UEM, lhe permitiria continuar trabalhando na PEC. Depois, sempre gostou de ensinar as crianças. ‘‘Não gosto de ver ninguém em dificuldade. Ensinei meus filhos, mas infelizmente eles pararam de estudar.’’
Juntos, marido e mulher recebem mensalmente R$ 500,00. A casa onde moram, com dois quartos, no bairro Jardim Alvorada, é fruto de uma herança deixada pelo pai de Darci. Geladeira, televisão, rádio, máquina de lavar roupas, fogão - tudo foi comprado a ‘‘duras prestações’’.
Ela recorda que as coisas só começaram a melhorar quando os filhos conseguiram emprego. Léa, 30 anos, casada, dois filhos, 2º grau completo, trabalha na Telepar. Ledinéia, solteira, 26, 1º grau completo, trabalha no escritório do Mercosul, e Josiandro, 21, desempregado, ainda não terminou o 1º grau. Darci já completou o 1º grau.

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