Há duas semanas, quatro equipes da Copel estão deixando de fazer seu trabalho original, de recuperação da rede de alta tensão, para se dedicar a outra tarefa igualmente perigosa e importante: retirar restos de pipas que ficam enroscados nos fios. Os técnicos estão percorrendo vários bairros da cidade, sempre às quartas-feiras e aos sábados, e chegam a ficar horas limpando as linhas de condução de energia elétrica.
O trabalho não tem data para terminar. ''O que estamos tirando ainda é o que restou das últimas férias. O pior ainda está para começar. Quando chegam o calor e as férias escolares, o problema se intensifica. Nós vamos continuar retirando, mas logo os fios estão sujos de novo. O problema é a falta de conscientização da população'', afirmou o encarregado de uma das equipes de manutenção, Marcos Alba. Ontem, ele e seus colegas de trabalho fizeram uma ''faxina'' nas redes do Jardim União da Vitória (Zona Sul).
As pipas se constituem na 3 principal causa de interrupção acidental no fornecimento de energia elétrica, só perdendo para as descargas atmosféricas e quedas de galhos de árvores sobre as linhas. A Copel estima que de 8% a 15% de todas as interrupções de energia no Norte do Estado sejam provocados por objetos estranhos presos à rede, como pipas, sapatos e pedaços de fios.
Estes objetos podem fazer com que um fio entre em contato com o o outro, causando curtos-circuitos e levando aos desligamentos, que podem afetar desde os transformadores chamados alimentadores, que em geral atendem a algumas quadras, até sub-estações, que fornecem energia para vários bairros. De acordo com o superintendente da Copel Distribuição Norte, Roberley Savariego, muitos dos apagões nas áreas centrais da cidade são provocados por pipas enroscadas em linhas de energia nos bairros periféricos.
''Um dos maiores riscos é quando há cruzamento de fios e a criança, ao puxar a linha da pipa na tentativa de desenroscá-la, faz com que os condutores batam um no outro'', explica Marcos Alba. Quando chove o perigo também aumenta, já que nestas ocasiões as pipas passam a funcionar como condutores de energia. E os materiais utilizados pelas crianças para a confecção do brinquedo nem sempre ajudam: entre os restos recolhidos pela Copel, há desde rabichos feitos de papel alumínio ou fita magnética até fios de cobre sendo utilizados como linha, ou ainda linhas recobertas de cerol, que aumenta o poder de condução de energia.
Para as crianças que soltam seus papagaios sob a teia de fios existentes nos bairros mais populosos, o perigo é constante. ''Outro dia o fio da minha pipa enroscou e eu levei um choque. Também apagou a luz. Daí minha mãe me proibiu de voltar a soltar'', contou um dos garotos que assistiam ontem ao trabalho dos técnicos da Copel. Ele confessa, porém, que a brincadeira está entre as preferidas dos garotos do bairro. ''Eu solto até Maranhão (pipa de tamanho maior que o convencional), que o meu pai faz, mas ele sempre me diz para não soltar onde tem fio'', disse outra ingrante da turma.

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