Favelas se multiplicam na periferia
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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
Dez quilômetros. Essa é a distância que separa o sonho da realidade. O pedreiro Devanil Correia mora em um barraco no assentamento Nossa Senhora Aparecida (Zona Norte). Se ele ganhasse na loteria e pudesse escolher um lugar para morar, se mudaria com a família para uma casa na Vila Brasil (Centro), bairro onde passou a infância.
No barraco de Correia, panos e cobertores velhos fazem as vezes de piso. A comida é feita em um fogão à lenha. Nem os buracos nas paredes conseguem diminuir a fumaça dentro da cozinha. ''Cheguei aqui sem nada, fui trazendo um pedacinho de pau a cada dia, igual o João de Barro'', conta.
Segundo os moradores, mais de cem famílias moram no assentamento, que começou com uma invasão há pouco mais de três anos. O lugar não tem água encanada nem luz elétrica. ''Para o meu padrão de vida, isso aqui é melhor que a rua'', resume Correia. Assim como ele, o maior anseio dos assentados é que a prefeitura regularize a ocupação: ''Se liberarem o terreno, a gente pode começar a construir uma casa de verdade. Depois, podemos lutar para conseguir asfalto, posto de saúde, essas coisas'', explica.
A história da família Correia é parecida com a de dezenas de milhares de outras famílias londrinenses. De acordo com o professor João Batista Filho, mais de 110 mil pessoas vivem nessas condições em Londrina. Especialista em Habitação, o professor diz que até o ano passado a cidade já tinha 63 favelas. Os dados foram coletados através de levantamentos feitos por ele junto com voluntários de várias associações de bairros e da Federação das Favelas de Londrina. Batista Filho estuda o assunto desde 1976. Ele é aposentado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), tem doutorado e pós-doutorado em Habitação Popular e trabalha atualmente na Universidade Norte do Paraná (Unopar).
Para o professor, as favelas são máscaras da cidadania. ''Deixar lugares como o Nossa Senhora Aparecida assim, durante anos, é uma vergonha. O próprio Estatuto das Cidades diz que as favelas têm que ser regularizadas. Ninguém mora em favela porque quer'', exclama. Para aqueles que ponderam que as regularizações acabam fomentando novas invasões, Filho questiona: ''Quando é pobre que invade, a prefeitura transforma em assentamento e larga o pessoal lá, anos a fio. Quando é rico que invade as margens do Igapó, por exemplo, daí a questão é tratada de outra forma. Não é uma hipocrisia?''.
As primeiras favelas apareceram cedo na história da cidade. Dados da Cohab apontam que a Vila Marizia (Centro) e a Vila Rica (Zona Oeste) surgiram no final da década de 30, portanto, ainda nos primeiros dez anos de Londrina. O professor Batista Filho confirma: ''A Marizia começou nos anos de 38 ou 39 e a favela da Vila Rica veio logo depois disso''. Na Cantinho do Céu (Zona Norte), já convivem quatro gerações de favelados. Entretanto, o problema se agravou nos últimos 30 anos.
''Com o fim do ciclo do café, a cidade ficou sem rumo. A monocultura da soja desempregou muita gente e ainda tivemos administrações que fomentaram o êxodo rural'', explica o diretor-presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul), Luiz Figueira de Mello. ''Faltou visão de desenvolvimento sustentável. Embora Londrina seja o 7º município produtor do País, agrega pouco valor à essa produção. A mão de obra que veio do campo para a cidade não tem qualificação profissional'', indica.
A solução, agora, seria planejar a cidade dos próximos anos. ''A gente vive tentando consertar mas precisamos mudar essa lógica, fazendo com que as ações sejam pró-ativas e não reativas''. O Ippul tem até junho de 2006 para revisar e concluir o novo plano diretor de Londrina. ''Estamos propondo uma discussão com toda a sociedade para encontrarmos juntos um norte do desenvolvimento da cidade'', aponta Mello. ''Se você não der possibilidade de renda para as pessoas, não vai acabar nunca com as favelas''.


