Ney de SouzaDo outro ladoFavela habitada por brasiguaios e conhecida como Sapelândia, em San Alberto: barracos de madeira sobre pântanoUm mar de barracos de madeira cobre um pântano na periferia de San Alberto (município a 88 quilômetros da fronteira com Foz do Iguaçu). Quando se pergunta quem mora nesse lugar, conhecido como Sapelândia, os habitantes da cidade respondem: ‘‘São os brasiguaios’’. Além da Sapelândia, núcleos de favelas brotam em toda a periferia de San Alberto. A maioria dessas áreas é habitada por famílias brasileiras.
O processo de favelização dos brasiguaios é um fenômeno presente dos dois lados da fronteira. Em Foz do Iguaçu, a principal cidade do Extremo-Oeste paranaense, com 230 mil habitantes, os emigrantes que voltam incham as áreas que foram invadidas na periferia da cidade a partir da segunda metade desta década.
Na favela do Portal da Foz (região leste da cidade) 80 das 1.200 famílias que vivem no local são brasiguaias. No Jardim Morenitas (região sul), já há mais de 50 famílias de brasiguaios entre as 1.600 que moram na área. ‘‘Como aqui já está lotado, falamos para os que chegam invadirem outras áreas’’, relata Dalmira Bastos, 36 anos, presidente da comissão de moradores. Nos últimos três meses, a comissão já ‘‘recusou’’ mais de 50 famílias de brasiguaios que queriam se instalar na favela.
Segundo levantamento da Pastoral do Migrante, entre 1995, quando começou o ‘‘êxodo brasiguaio’’, e este ano, o número de favelas em Foz do Iguaçu saltou de 42 para 75. De acordo com a prefeitura, 40 mil pessoas (17% dos moradores da cidade) vivem em áreas invadidas. Não há levantamento sobre o percentual de brasiguaios nesse total.
O ex-arrendatário João Maria Ângelo, de 32 anos, voltou de Santa Tereza (a 60 quilômetros da fronteira) há um ano, depois de ser dispensado pelo proprietário da terra. Ele construiu uma pequena casa de madeira na invasão do Portal da Foz, onde mora com a mulher, Eva Patikoski, de 31 anos. Continua desempregado: ‘‘Me viro fazendo bicos’’.
Outra moradora da favela é Ondina Rodrigues Emídio, de 33 anos. Ela trabalhava como doméstica em Hernandárias (a 25 quilômetros de Foz), mas não tinha documentação paraguaia. Voltou porque ‘‘viver aqui é melhor’’. Hoje, sustenta a filha, Flávia, de 12 anos, com a venda de roupas de porta em porta.
Também não há dados sobre a ‘‘participação’’ de brasiguaios nas favelas de cidades paraguaias da região. Mas o aumento desse fenômeno é visível. Há quatro anos, a paranaense de Dois Vizinhos (Sudoeste) Lídia da Rosa, de 35 anos, vendeu os dois alqueires de terra que tinha com o ex-marido e mudou-se para a favela da Sapelândia, em San Alberto.
Desempregada, ela quer voltar para o Brasil com os quatro filhos, que têm idades entre dois e 19 anos, e os dois netos. Pôs à venda, por 2 milhões de guaranis (R$ 850,00), o casebre de três cômodos. Até a semana passada, não havia aparecido comprador. Há 200 propriedades à venda em San Alberto, todas de brasiguaios que querem voltar.

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