Favela troca de nome e perde má fama
Cristine Pieske
Kraw PenasProgressoRuas com antipó, postes de luz e placas deram status à antiga favela, onde agora os terrenos chegam a custar até R$ 15 milAo invés de empilhar novas casas, espalhar lixo e má-fama, a mais famosa favela de Curitiba mudou de rumo e se transformou em um lugar de onde poucos moradores querem sair. Os terrenos foram quase todos regularizados, o comércio cresceu, o lixo passou a ser recolhido regularmente, as ruas ganharam antipó, postes de luz, telefones públicos, placas e nomes que já aparecem nos mapas da cidade. Fora das pranchetas da prefeitura, a ex-Vila Pinto e atual Vila das Torres passou a ser o endereço de pessoas que enfim falam com orgulho do lugar onde vivem. Ainda há assaltos, brigas de traficantes e roubos - mas ninguém mais sente vergonha de dizer que mora ali.
O nome Vila Pinto sempre assustou as pessoas de outros bairros, e por isso a maioria dos moradores mentia o endereço para não enfrentar preconceitos, diz o presidente da Associação de Moradores da Vila das Torres, Vilmar Andrade. Hoje, as correspondências chegam aos destinatários exibindo o nome da nova vila, e os antigos habitantes, muitos com passagem pela polícia, deram lugar aos empregados das fábricas e dos colégios vizinhos. Atualmente, são quase 6 mil moradores, a maioria com telefone, carro e planos de construir uma casa maior no mesmo lugar.
Kraw PenasAndrade: Os moradores mentiam o endereço para não enfrentar preconceitosIsso aqui melhorou 100%, diz um dos mais antigos moradores da região, o motorista Francisco Lopes da Silva. Para ele, que ergueu um dos primeiros barracos às margens do Rio Belém, a nova geografia da Vila das Torres traduz o progresso inevitável da região. Agora sim parecemos um bairro de verdade, com pontos de ônibus nas ruas principais e água nas torneiras, diz.
Além do orgulho dos seus habitantes, a Vila das Torres ganhou uma avenida asfaltada, um módulo policial na área mais central da vila, postos de saúde e duas novas creches. O projeto de reurbanização, iniciado pela prefeitura em 92, trouxe também a valorização imobiliária para a região. Hoje, cada terreno custa no mínimo R$ 15 mil e as lojas de material de construção faturam com a chegada de novos moradores. Nossa intenção foi equipar a vila para que ela deixasse de ser um gueto, atraindo pessoas que queriam cultivar a vida ali, diz administradora regional da prefeitura, Rosane Amélia Pott.
A polícia continua considerando a Vila das Torres como um local de risco, e tenta coibir as possíveis investidas de assaltantes com blitze rotineiras nas principais vias de acesso à região. Alguns moradores ainda reclamam da violência, mas não negam que as coisas estão muito diferentes do que há seis anos. Aqui é muito melhor do que outros bairros mais famosos da cidade, onde o comércio e as escolas ficam em locais muito distantes, afirma o catador de papel Paulo Pereira da Silva. Há dez anos, ele trocou a Vila Pinto pela periferia de Pinhais, mas se arrependeu e acabou voltando. Quero que meus filhos cresçam aqui, diz.





