Ventania - À semelhança da surpresa no poema de Drummond, ''no meio do caminho tinha uma pedra'', o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) tropeçou numa favela em Ventania (Norte Pioneiro), causa do mais recente impasse a interromper a pavimentação da BR-153 no Paraná. Mas a solução está chegando. ''Sempre que fica difícil sair, entra o Exército'', diz a arquiteta Marina Chammas Cassar, identificando o agente que vai desobstruir o caminho, ao mesmo tempo melhorar a vida de 59 famílias, que vão receber outras casas em troca, e completar o trecho rodoviário.
Marina é diretora da empreiteira Chammas Construções Civis, de Ribeirão Claro, vencedora da licitação para construir o conjunto habitacional destinado às famílias que vão sair da favela. O prazo de entrega das moradias e infraestrutura (seis meses) vence em abril de 2011, informou Marina. Estavam previstas inicialmente 74 demolições, que baixaram para 59.
Depois das sucessivas interrupções da construção da BR-153 (Transbrasiliana) no Norte Pioneiro, desde a década de 1960, as obras avançaram a partir da ordem de serviço expedida em agosto de 2006. E o trecho de 82,4 quilômetros de Ventania até Alto do Amparo (BR-376) passando por Tibagi estaria completo se não houvesse a favela, ao ''pé'' do viaduto de transposição da linha férrea. Compreendendo a favela e outros espaços, estima-se aproximadamente um quilômetro de rodovia a construir.
Na sede da Fazenda Curucaca, próxima ao trevo onde se cruzam a BR-153 e a PR-090 (Rodovia do Cerne) em Ventania, o fazendeiro e cineasta Homero Camargo Ribas já divisa um enredo sobre a Transbrasiliana. ''Demorou tanto que Ventania cresceu e hoje a rodovia está dentro da cidade'', observa. ''E alguém vendeu o leito da rodovia, onde surgiu a favela.'' A seu ver, deveriam ter alterado o traçado para não esbarrar na favela.
Para Josildo José Machado, não-favelado e que se declara nascido nas bandas de Piramirim e Machadinho, lá em Piraí do Sul, ''terra do nosso governador Moysés Lupion'', o retardamento da BR-153 tem uma razão, em profecia apocalíptica do monge João de Maria: ''O dia em que a estrada ficar pronta, Ventania acaba''. Advertido de que o monge, cultuado no Recanto Olho D'Água, ora em restauração, supostamente passou por ali na década de 1890, quando a BR era só um caminho de tropeiros, Josildo ressalva: ''Bem, é o povo que fala, né?''

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