Costuma-se dizer que o Brasil tem mais de 100 milhões de técnicos de futebol. Nos últimos anos, pessoas que não lidam profissionalmente com o esporte têm utilizado os jogos eletrônicos e a internet não apenas para soltar seu lado ''professor'' (como os boleiros chamam os treinadores), mas também sua porção cartola. São cada vez mais comuns os games em que os jogadores têm que administrar clubes de futebol, desde os cuidados com o estádio até a escalação do time.
Nada de atletas virtuais conduzidos pelo teclado ou pelo joystick: o jogador apenas pode torcer para que seu trabalho ''extra-campo'' se reflita em títulos. Games desta vertente já existem há um bom tempo a primeira versão do conhecido Championship Manager (CM) foi lançada em 1992. Em jogos como o Elifoot e o ManagerZone, um dos mais badalados do momento (tem mais de 430 mil membros cadastrados em vários países), é necessário administrar as finanças do clube e contratar jogadores.
O estudante João Augusto do Vale Côrrea, 16 anos, passa cerca de três horas por dia em frente ao computador aperfeiçoando seu time no CM. Como ''técnico'', com apenas seis meses na ''profissão'', ele já exibe um currículo de causar inveja em muito treinador da 1 Divisão do Campeonato Brasileiro: começou no São Paulo e os bons resultados o levaram ao Boca Juniors e depois à Inter de Milão.
''Muita gente acha esse tipo de jogo chato. Mas para quem entende e gosta de futebol, é divertido. Chega a 'viciar''', diz o estudante. O CM permite disputar campeonatos na internet, mas João Augusto prefere apenas desafiar a ''máquina'', conforme o vocabulário próprio dos entusiastas de jogos eletrônicos.
Em todos os games do gênero, existem várias divisões, com acesso e rebaixamento. Com grande vantagem sobre a vida além do computador: não tem virada de mesa. ''Você tem que saber administrar as finanças e arrecadar quantias suficientes para melhorar sua estrutura'', aconselha o empresário Welton Almeida Costa, adepto do Elifoot.
Os membros do ManagerZone, disputado na internet, precisam pagar taxas R$ 10 de inscrição na comunidade e R$ 1 para participação em competições além das ligas e dos campeonatos oficiais oferecidos. O jogo compensa com uma riqueza impressionante de detalhes: o administrador recebe ''cotas'' de patrocínio virtuais para contratar reforços e controla até o número de barraquinhas de cachorro-quente no estádio do clube. Outra curiosidade é que os atletas da equipe envelhecem a cada temporada. Podem inclusive pedir aposentadoria.
''Em outros países, os campeões das copas do ManagerZone ganham prêmios como celulares e câmeras digitais'', conta o fotógrafo Lauriano Benazzi, administrador do Tabajara Futebol Clube dentro do ManagerZone. ''Sempre adorei jogos eletrônicos e internet. Esse game juntou as duas coisas''.
Engana-se, porém, quem pensa que o futebol virtual substitui o real. ''O computador é só um lazer a mais. Prefiro esportes de verdade. Pratico futebol de salão e basquete'', diz Costa. Além das horas dedicadas ao futebol na tela do computador, João Augusto joga bola três vezes por semana. ''Vou até fazer teste no PSTC. Um tio me arranjou outro teste, no Juventude de Caxias do Sul (RS)''.

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