Para alguns, as festas de fim de ano são um tempo de consumo desenfreado. Presentes são a atração especial da temporada. No entanto, em algumas famílias a comemoração vai ser muito maior; confraternização, gratidão e uma oportunidade de recomeçar. Em algum momento deste ano de 2003, houve gente que aprendeu a celebrar a vida de uma forma diferente. Alguns, encarando a morte. Outros, realizando sonhos, concluindo projetos. Há também os que acabam de recuperar a liberdade e têm uma nova chance de reescrever a própria história. Para essas pessoas, pacotes, comidas e bebidas é o que menos importa nestes dias. O presente que elas ganharam não tem preço e a festa verdadeira está no coração.
É assim na casa de dona Maria Moreira Gonçalves, 57 anos. Sentada ao lado do filho na sala de uma casa simples na Zona Oeste de Londrina, ela traduz em apenas uma palavra o sentimento da família inteira neste fim de ano: gratidão. No primeiro dia do ano de 2003, perto das cinco da tarde, ela foi surpreendida com a notícia de que o filho mais velho, Isael, 33 anos, havia sofrido um acidente. Bombeiro, Isael estava numa viatura do Siate que capotou na estrada entre Londrina e Tamarana. Ele ficou um mês entre a vida e a morte na Unidade de Terapia Intensiva. Sobreviveu graças a um ''milagre'', garante dona Maria.
''Ele ficou 100 dias sem pronunciar uma palavra. Quando falou pela primeira vez, pediu água gelada'', lembra a mãe. A recuperação, agora em casa, é lenta e difícil. Cercado pelo amor dos irmãos, pais e da avó, Isael luta para recuperar a fala e os movimentos. ''Ele está aqui e isso é o mais importante. Nós sempre fomos muito unidos e agora estamos ainda mais próximos, um ajudando o outro. Neste Natal meu maior presente é ter meu filho vivo e só o que peço para o Papai Noel é a saúde dele de volta''.
Um tombo mudou para sempre a vida do eletricista João Rubens Rodrigues, 42 anos. Chovia na tarde do dia 2 de julho. Um segundo de distração fez com que João perdesse o equilíbrio e caísse de uma altura de 8 metros dentro de um tanque com água e soda cáustica. ''Quando chegamos no hospital e vimos o João, ficamos desesperados. Ele teve o fígado e o rim perfurados, hemorragia interna e queimaduras pelo corpo. O médico disse que ele não ia aguentar e que se a gente tivesse fé, era para rezar'', conta a irmã, Cleusa Oliveira Rodrigues, 53 anos. Assim como Isael, João ficou mais de um mês no hospital. Sobreviveu, mas ficou cego.
''Este é o meu primeiro Natal depois do acidente e eu agradeço a Deus por estar vivo. É também o primeiro Natal sem o meu pai, que morreu meses antes do meu acidente. Tudo isso fez com que eu aprendesse muito. Quando acontece uma coisa dessas na vida da gente, você passa a creditar em Deus. Essa é a mudança maior, eu acho'', diz João. Tranquilo, ele confessa que planeja um fim de ano junto com a família, com simplicidade e sossego: ''Hoje o Natal virou sinônimo de comércio. As pessoas só pensam em comprar. Para mim, é o nascimento de Cristo e o que eu peço é para Deus aumentar a minha fé''.
O início de um novo ano também traz esperança. ''Eu não gosto de ficar parado. Se Deus ajudar, vou recuperar a visão e voltar a trabalhar. Gostaria de ver de novo o rosto dos meus filhos e o meu próprio rosto também. Devo estar diferente'', imagina. Pai de 6 filhos, João era muito vaidoso antes do acidente. Gostava de pagode e de sair com os colegas. Desde que saiu do hospital, a maioria dos amigos desapareceu. ''A gente perde algumas coisas mas ganha outras. Hoje eu olho para o céu e não vejo as estrelas. Em compensação, tenho fé e sou grato simplesmente por estar aqui. Nesse tempo de solidão, aprendi a conversar com Deus. Ganhei um novo amigo'', garante.

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