Famílias têm medo de denunciar leis da cadeia
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de maio de 1997
Patrícia Zanin 
As leis da cadeia e do silêncio parecem conviver juntas e vieram à tona com a rebelião no 3º Distrito Policial (DP). Denúncias de familiares dos detentos revelam um esquema de corrupção e cobrança de propina envolvendo presos de confiança da Polícia. As denúncias incluem pagamento de taxa para uso do telefone, colocação de colchão e transferência de cela. Alguns parentes não se identificam temendo represálias aos presos.
Eu já trouxe para cá 300 reais, relata uma mãe. O DP tem três presos de confiança e um usa até colete da Polícia Civil, fica com mercadorias e comida entregues pelas famílias, conta uma namorada. Um dos presos de confiança acusado de extorsão é identificado por Caroço.
O servidor público municipal Ademar Borges Cunha reclama que a esposa sempre leva comida ao filho, mas ele nunca recebe. A comida vai para os presos de confiança. Ele chegou ao DP com a mulher, Ildete, por volta das 19h30 e demorou uma hora para ter informações. O drama deles foi ainda maior porque Ildete telefonou antes para lá e disse ter sido informada que três morreram na rebelião. Depois de conseguir notícia do filho, Ildete desabafou: Deus abençoe todos eles, assim como peço a Deus que abençoe os policiais militares que espancaram os meninos. Eles também têm filhos.
Outra que chorou desesperadamente foi a doméstica Jandira Capobiano Pereira de Oliveira, 60 anos. Além da falta de informações, ela estava angustiada com a surra que os presos levaram dos PMs na sexta-feira. O filho dela, Antônio Pereira de Oliveira, acusado de tráfico de drogas, tem lepra. Ela diz que a situação de Oliveira é gravíssima porque depois de preso, há 22 dias, foi obrigado a interromper o tratamento no Hospital Universitário.
Tanto o juiz corregedor Roberto Ferreira do Valle como o delegado-adjunto, Vanderci Corral Fernandes, desconhecem as denúncias das famílias e disseram que só podem tomar providências caso as acusações sejam formalizadas. Estranhamente, mesmo depois de toda situação contornada, três presos ficaram numa sala do DP, ao invés de estarem junto com os outros detentos, nas celas destruídas. O curioso é que eles receberam a comida que as famílias levaram aos presos.


